terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
raso
pro caminho do sossego -
mas no fundo
é raso;
água bate no joelho
nada - não é nada
nunca foi tão fácil
contudo, calo
ressoa
o som da minha voz...
não sabe, o gato,
andar na linha
desliza linha, desaba e
cai
fim da linha
um ponto, um nó, um calo -
um só.
já sei, já saio
por aí, desmedida voz
anseio andarmos por aí
e nos encontrarmos sós.
quinta-feira, 6 de março de 2014
iluminação
o espírito resplandecia
feito estrelas
uma luz ancestral
trazendo sabedoria
cobrindo de flores o chão do mistério
Iluminação
a mãe velha deitada
eternamente grávida
do cristal iluminado
montanha, rocha, pedra
abrigo para os que dançam
em liberdade
a plenitude
segunda-feira, 14 de março de 2011
formiga-faraó
Ela me disse uma vez que eu não devia escovar os dentes logo após beber Coca-Cola e eu quis saber o porquê. Deu uma resposta plausível e aceitei naquele momento, evitando assim qualquer contestação. No entanto, a voz dela repetindo a mesma sentença tornou-se constante; passei então a assumir todas a responsabilidades nas vezes seguintes em que cuidei dos dentes bem depois de ter bebido o refresco gasoso.
Foi quando um rato passou por debaixo da mesa, pensei que fosse um vulto qualquer, quiçá um espírito. Meu cabelo arrepiou de tanto medo, não pelo fato de poder ser um espírito... mais muito mais: por talvez uma barata ter passado por debaixo da mesa vindo a esconder-se em qualquer canto da copa, da sala, do quarto, da cozinha, do banheiro.
Ao fazer a higiene bucal percebi que o creme dental tinha acabado e pensei que ela poderia ter vindo até aqui e levado embora, pois temia que meus dentes todos ficassem deteriorados e o meu sorriso não seria mais inteiro; faltariam alguns dentes para fechar a mordedura e que por isso eu poderia ter algum derrame, dor na coluna, dor de auto-estima ou uma simples dor de dente.
Segui o vulto, na verdade, por onde ele poderia ter ido e deparei-me com uma fileira de formigas, daquelas que costumam aparecer magicamente, por feitiçaria, dentro do açucareiro. Percorriam todo o corredor nas partes que ligavam o piso de cêramica - uma calha preenchida por massa corrida, acho eu. Elas transitavam nesse espaço “entre”, nesse vão emporeirado; o piso todo sujo pois há uns quinze dias que não varria a casa.
No dia em que ela partiu.
Eu tinha nove quilos quando nasci e hoje tenho... não sei exatamente.
Sinto o meu corpo pesar sobre a terra, minha cabeça pesar no pescoço. Muitas vezes os meus braços estendem-se pelo chão e atravesso de quatro a sala, o quarto, a copa, a cozinha ou o banheiro, assim, de quatro ou arrastando-me ou, quando muito cansado, rolando, desenrolando o tapete.
Eu via as formigas desaparecendo no espelho do banheiro.
Procurando a pasta e a escova de dente, dei conta do desaparecimento dela, não da pasta ou da escova, dela; da pasta e da escova dela. Deixara um recado lembrando do cuidado para com o refrigerante - sorri e chorei ao mesmo tempo.
É o que todos andam dizendo.
Tem tomado ansiolíticos indiscriminadamente e por conta disso passou quinze dias em sono profundo. Quando acordou recolheu suas coisas e saiu pela janela.
Eu não vi, suspeitei do vulto que senti passar por mim enquanto, logo após preparar as malas, escrevia um bilhete.
Ela está louca.
sexta-feira, 11 de março de 2011
quarta-feira de cinzas
Tinha os olhos molhados e rabiscos de linhas na face por conta das lágrimas que desciam pelas bochechas até o queixo, algumas respingavam no chão, outras resvalavam na camisa que estava abotoada até o pescoço. O diabo adentrou o portal da paróquia bradando pelo padre.
-Estou sufocado, seu padre!
-Desabotoe a camisa, meu filho. Com certeza terá um pouco de alívio se assim proceder.
Durante a fala do sacerdote, pode contemplar o rosto do anjinho aos pés da Virgem Maria da Medalha Milagrosa e sentir o bafo silencioso dos incensos queimados em antigos rituais. Um azul celeste era projetado por um dos vitrais e varria o chão, um outro vitral coloria em tons diversos a parede oposta.
-Pois então, diga-me o que tanto o aflige a ponto de pedir repouso nas mãos de Deus.
-Antes de mais nada, peço perdão.
-Aqui é como se fosse um hospital, vejo que o seu caso é de urgência. Cristo morreu na cruz por todos nós, há de lhe perdoar independentemente do delito.
O capeta mostrou as chagas em suas mãos e pescoço tomando bastante cuidado pois ainda sentia muitas dores. Com movimentos lentos e imprecisos levantou a camisa exibindo o que parecia ser uma grande ferida na barriga.
-Quando acordei, ainda meio cambaleante, aproveitei uma poça para poder observar o meu estado. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o próprio cão olhando nos meus olhos - os órgãos que me olhavam eras os meus, as minhas próprias retinas, como se no fundo estivesse eu mesmo a meter um grande susto em mim. Meu braço esquerdo se levantou numa tentativa vã de segurar as feições que esboçavam um apavoramento na água suja.
Com um leve sorriso nos lábios, o padre solicitou paciência. Foi até a sacristia, retornando após alguns instantes com um bacia de metal e um vaso bojudo de cerâmica. Ao receber água, as feridas do agonizante sumiram. Com o auxilio do retalho da roupa de algum santo, o padre esfregou todas as marcas avermelhadas do aflito homem.
- Não turbe o vosso coração, credes em Deus e em mim. Há muitas moradas na casa de meu pai. Bem-aventurados os que vertem lágrimas pois serão consolados. Você já está limpo pelas palavras que proferi.
Enquanto mirava a sua imagem no fundo da bacia a partir do espelho de água turva, o homem verificou que não tinha mais a cor do tinhoso. Escutou uma canção e a princípio, pensou tratar-se dos sinos da igreja tocando as horas do meio dia, entretanto algo vibrava no bolso da calça – era o toque polifônico do celular.
Parecia acanhado quando terminou a ligação. Acenou para o padre e desapareceu na luz que vinha da porta principal da igreja.
-Vai-te, e não peques mais. - Murmurou o servo de Deus.
quinta-feira, 3 de março de 2011
acordo
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Órgão de Jacobson
Enquanto arrumava alguma justificativa para interromper a série de acusações, nossos corpos projetaram-se levemente para frente com o solavanco da lua ao encalhar num banco de areia.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
pombo fobia - I
Pra tudo há uma explicação, o fato a ser confessado não escapa dessa sentença. Já de início declaro: Tenho matado os pombos desta cidade, sendo essa uma batalha cotidiana - não há perdão! Mato as aves e dou um jeito naqueles que as alimentam.
Uma vez escutei que essa espécie chegou ao Brasil numa tentativa de Dom não sei quem imitar as praças italianas, de Paris... não faço ideia. Não encontrando predador, o bichinho asqueroso, esse rato de asas, passou a governar plenamente e a quase tomar conta das nossas cidades. Tão parecido quanto o gesto do famoso representante, são essas viúvas que costumam alimentar os pombos nos finais das tardes em determinados locais ou então os pipoqueiros que se acham prestando solidariedade.
Pode parecer cruel, pode não ser bem visto perante as diversas ongs de proteção, mas digo com baba na boca tamanha raiva entre os meus dentes: morte aos pombos! Gerrilha aberta aos pombos! Quem tiver coragem de limpar a nossa cidade das penas sujas dessa espécie de quinta que venha junto! Armas não faltam, na Carioca mesmo podemos comprar de um daqueles rapazes um bocado de chumbinho mata rato. Enquanto o pipoqueiro joga no chão o restante dos grãos, aproveito e lanço um tanto do meu veneno. Está feito, o culpado da morte é o mesmo o qual tentou inocentemente salvar o ladrão. Incontáveis vezes peguei meu carro e segui atropelando pombos pelas ruas e ruelas da cidade, extasiava-me ouvindo a explosão dos pulmões quando o pequeno corpo encontrava o meu parachoque. Na capital esses bichinhos de asas sujas transitam abusadamente pelo asfalto e só levantam voo quando o carro se aproxima, bem perto, bem de perto, perto. Adquiri uma técnica a partir de constantes observações: no momento exato em que impulsionam-se para fora do chão, acelero um pouco mais o meu automóvel e pou! pasta.
Escutei de uma senhorinha enrrugada que quando um casal de pombos faz ninho no telhado é sinal de morte; lembrei do meu pai. Dizem também que ninguém nunca viu filhote de pombo - eu já vi e digo: é feio, feio, feio! Nascem e desenvolvem-se rapidamente, em 15 dias abandonam os bicos dos pais. Acompanhei um familizinha por um bom tempo, fizeram moradia na laje do banheirinho dos fundos da minha casa no litoral - quando eu ainda morava por lá e antes do meu pai falecer. Modelo perfeito do que se pode chamar instituição familiar - modelo perfeito quanto ao que almejamos numa relação sincera e duradoura.
Tive um problema sério de saúde durante o período em que acompanhei a reprodução e desenvolvimento dessa família alojada no alto da minha casa; fiquei de cama, acabado, quase morri. O médico diagnosticou um tipo de bactéria presente nas asas desses bichos leprosos. Desde então comecei a pensar, a planejar um meio de dizimá-los. Faz-se necessário um predador forte e sagaz - enquanto Deus não cria um, disponho-me com mãos firmes nessa empreitada.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Felis silvestris catus

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
nocturna moth
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Anhaia
Ela era obtusa. Pra tudo tinha uma explicação que achava congruente ao ponto de se submeter a situações um tanto perpendiculares. Não foi diferente quando Nestor resolveu procurá-la a fim de dar umazinha, fora direto ao termo e repetiu a proposta: por que não damos umazinha hoje? - Anhaia não respondeu que sim nem que não, depois de ter ficado boquiaberta quando no primeiro momento o rapaz propusera a questão. Consentiu com a cabeça após uns silenciosos vinte e três segundos, figindo refletir se valeria a pena ou não trepar com o ex. Ele não viu a reação dela, apenas escutou o “sim” após leve sonoridade que parecia ser a respiração da moça.
Os dois se entendiam muito bem na cama, no chão e na pia. Quatro anos - tanto tempo de casamento tem sua vantagem, o longo período permitia o despudor, coisa que nenhuma foda perdida entre boate, mercado, trabalho, praia e trânsito possibilitaria. As noites de sexo ao acaso até poderiam ser gostosas, mas pra Anhaia nada era melhor do que o seu querido pinto domesticado que cabia perfeitamente em sua boca e que com gosto provocava a sua boceta.
A relação começou a degringolar quando os dois refletiram que precisavam ter novas experiências - vivendo outros corpos, abrindo a relação pra conhecer novas pessoas. Procuravam dessa forma saber se um sentiria falta do outro. Achavam-se novos demais, estavam nadando num rio caudaloso e profundo; achavam que poderiam ainda viver muitas outras pessoas, muitas outras bocas. A elasticidade do amor não suportou tamanha extensão, vindo a romper quando Anhaia se viu enlouquecida com o tamanho do falo do colega de trabalho, Humberto - pertencia ao RH da empresa de telemarketing onde ela era represetante de serviços.
Foi sob justa causa que terminou a aventura com Humberto, quando Anhaia fotografava o membro rijo dele na escada de incêndio que dava pro terceiro andar. Temendo macular a carteira de trabalho, o colaborador exemplar do RH deu uma determinada quantia ao segurança Jorge. Como Anhaia já tinha rapado o cheque especial pra dar de entrada na câmera digital, acabou não podendo subornar o funcionário. Nesse mesmo dia, após tomar conhecimento de que sua esposa mantinha um amante fixo há mais de três semanas, Nestor propôs que dessem um tempo na relação. Anhaia não teve forças pra contestar. O rapaz não tolerou o espanto da mulher, era humilhante pensar que a esposa não estava bem servida em relação ao tamanho do seu pau - quanto a isso tinha conciência de que nada poderia fazer; era bem verdade que o marido não tinha um dote desses que pudesse tirar onda ao desfilar nos domingos de praia com a desfiada sunga verde desbotada.
Segundas sucederam segundas, domingos a domingos. Anhaia não saia e nem postava mais nada em seu fotolog de putaria, canal utilizado com o intuito de angariar parceiros. Tentou em vão encontrar alguma amiga da época em que ainda era solteira e frequentava os bailes da boate Arraso (“lugar de gente bonita” - essa inscrição ficava na fachada, debaixo do nome da casa de entretenimentos). Josi estava casada e esperava o primeiro filho. Amanda não morava mais na cidade e o seu perfil no Orkut constava que agora trabalhava pra Jesus. Priscila morreu de aneurisma - Joyce contou que todo mundo sabe que na verdade ela teve foi complicações do HIV, “a família tenta porque tenta abafar essa informação”. Joyce era a única remanescente, porém Anhaia não tinha a menor paciência com a fofocaria dela. A antiga ironia da amiga virara um sarcasmo intolerável, prova de alguma frustração. Andar com gente de língua grande e venenosa seria risco certo de ficar muitos anos sem trepar e como consequência, morar pra sempre com a tia mais velha da família.
Anhaia estava enviando currículos por e-mail quando o telefone tocou.
Nestor fodia bem. Anhaia pediu pra que ele esperasse por ela, chegaria em menos de duas horas - prazo razoável pra tomar banho (raspar as partes com um velho barbeador rosa de giletes gastas que sempre deixava sobre o basculante do banheiro) e esperar o ônibus. Do seu apê ao apê do rapaz levaria quarenta minutos.
domingo, 16 de janeiro de 2011
beco
Linhas de pipas tecem teias pelo telhado e nos portais das portas que dão para fora. As crianças dos becos passam o dia todo das férias mirando o céu e correndo atrás dos pássaros de papel. São todas de uma cor torrada, horas e horas debaixo do sol – acordam já com as cabeças nas nuvens.
E é uma gritaria que só, uma correria danada: é minha! é minha! - Um sacolé numa das mãos e na outra a linha presa com uma pedra, marimba.
Um azul desabusado, dia lindo de praia. E as crianças que nada! mergulham fundo no sonho de voar que deve ser ou ter a mesma sensação de nadar, mas ao contrário e sem precisar segurar o nariz. Não são os mesmos meninos do tempo em que eu era pequeno, quieto e ingênuo, porém assemelham-se bastante, diria até que talvez sejam as mesmas, talvez o tempo no beco não tenha passado e nunca faça girar o relógio; seja ali, muito provavelmente, a Terra do Nunca.
Pés no chão, mãos grossas de cerol protegendo os olhos da luminosidade. Miram obsecadamente as estampas coloridas em papel de seda barata que sobrevoam, que sobrevoam, que sobrevoam...
Ainda há pouco, enquanto lia um livro de adulto escrito num português quase alemão de tão dificil e metido a besta, ouvi um barulho de galinha ciscando no cimento. Era o “homem-aranha” de cabeça para baixo, as arestas da pipa batendo no chão e a rabiola embolada e o restante da linha enrolada na fiação de telefone; parecia passarinho tentando voar. Não precisei esperar muito para observar duas mãozinhas com as unhas sujas trepadas no muro, depois os olhinhos arregalados e o nariz assustado compondo um apavoramento com a sobrancelha:
-Tio, pega aí pá mim!
Recomendei calma; para que tivesse calma e descesse do muro. Observei que as pipas nascem rapidinho, todo dia tem uma nova no céu. Gugu abriu um sorriso-moleque. Não lembro dele quando bebê – nasceu crescido, na idade das travessuras; era o terror do beco. No carnaval passado, enquanto corria vigiando a pipa que cortara e seguia planando, foi atropelado por uma kombi. Meti a cabeça na janela procurando o motivo do estrondo. O trânsito estava confuso, como era e continua sendo comum na época do momo. O pequeno surgiu sangrando entre os carros e continuou o trajeto rumo à lagoa onde se limpou e resgatou o papagaio pela rabiola. Uma semana depois vi Gugu todo enfaixado e com gesso numa das pernas – ficara uns três ou quatro dias internado.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
o faroleiro - IV
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
o faroleiro - III
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
o faroleiro - II
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
o faroleiro - I
domingo, 26 de dezembro de 2010
Nette Franga
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
glória - 8
segunda-feira, 15 de março de 2010
maracanã - chuva e futebol
chuva pesada contra luz marcada
o coro gritando
assustadora beleza
palavras de raios e trovões.
segunda-feira, 8 de março de 2010
raso
qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...
-
sabe, andei pensando que o meu amor é muito perigoso é um peito aberto que se entrega à espada lancinante do cavaleiro cravando-se ...
-
Ela era obtusa. Pra tudo tinha uma explicação que achava congruente ao ponto de se submeter a situações um tanto perpendiculares. Não foi di...
-
poucas coisas compreendemos nesse mundo e de tudo, nada levamos - a doce certeza do suspiro final nossos olhos fotografam a imagem ...