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segunda-feira, 14 de março de 2011

formiga-faraó

Ela me disse uma vez que eu não devia escovar os dentes logo após beber Coca-Cola e eu quis saber o porquê. Deu uma resposta plausível e aceitei naquele momento, evitando assim qualquer contestação. No entanto, a voz dela repetindo a mesma sentença tornou-se constante; passei então a assumir todas a responsabilidades nas vezes seguintes em que cuidei dos dentes bem depois de ter bebido o refresco gasoso.

Foi quando um rato passou por debaixo da mesa, pensei que fosse um vulto qualquer, quiçá um espírito. Meu cabelo arrepiou de tanto medo, não pelo fato de poder ser um espírito... mais muito mais: por talvez uma barata ter passado por debaixo da mesa vindo a esconder-se em qualquer canto da copa, da sala, do quarto, da cozinha, do banheiro.

Ao fazer a higiene bucal percebi que o creme dental tinha acabado e pensei que ela poderia ter vindo até aqui e levado embora, pois temia que meus dentes todos ficassem deteriorados e o meu sorriso não seria mais inteiro; faltariam alguns dentes para fechar a mordedura e que por isso eu poderia ter algum derrame, dor na coluna, dor de auto-estima ou uma simples dor de dente.

Segui o vulto, na verdade, por onde ele poderia ter ido e deparei-me com uma fileira de formigas, daquelas que costumam aparecer magicamente, por feitiçaria, dentro do açucareiro. Percorriam todo o corredor nas partes que ligavam o piso de cêramica - uma calha preenchida por massa corrida, acho eu. Elas transitavam nesse espaço “entre”, nesse vão emporeirado; o piso todo sujo pois há uns quinze dias que não varria a casa.

No dia em que ela partiu.

Eu tinha nove quilos quando nasci e hoje tenho... não sei exatamente.

Sinto o meu corpo pesar sobre a terra, minha cabeça pesar no pescoço. Muitas vezes os meus braços estendem-se pelo chão e atravesso de quatro a sala, o quarto, a copa, a cozinha ou o banheiro, assim, de quatro ou arrastando-me ou, quando muito cansado, rolando, desenrolando o tapete.

Eu via as formigas desaparecendo no espelho do banheiro.

Procurando a pasta e a escova de dente, dei conta do desaparecimento dela, não da pasta ou da escova, dela; da pasta e da escova dela. Deixara um recado lembrando do cuidado para com o refrigerante - sorri e chorei ao mesmo tempo.

É o que todos andam dizendo.

Tem tomado ansiolíticos indiscriminadamente e por conta disso passou quinze dias em sono profundo. Quando acordou recolheu suas coisas e saiu pela janela.

Eu não vi, suspeitei do vulto que senti passar por mim enquanto, logo após preparar as malas, escrevia um bilhete.

Ela está louca.



sexta-feira, 11 de março de 2011

quarta-feira de cinzas

Tinha os olhos molhados e rabiscos de linhas na face por conta das lágrimas que desciam pelas bochechas até o queixo, algumas respingavam no chão, outras resvalavam na camisa que estava abotoada até o pescoço. O diabo adentrou o portal da paróquia bradando pelo padre.

-Estou sufocado, seu padre!

-Desabotoe a camisa, meu filho. Com certeza terá um pouco de alívio se assim proceder.

Durante a fala do sacerdote, pode contemplar o rosto do anjinho aos pés da Virgem Maria da Medalha Milagrosa e sentir o bafo silencioso dos incensos queimados em antigos rituais. Um azul celeste era projetado por um dos vitrais e varria o chão, um outro vitral coloria em tons diversos a parede oposta.

-Pois então, diga-me o que tanto o aflige a ponto de pedir repouso nas mãos de Deus.

-Antes de mais nada, peço perdão.

-Aqui é como se fosse um hospital, vejo que o seu caso é de urgência. Cristo morreu na cruz por todos nós, há de lhe perdoar independentemente do delito.

O capeta mostrou as chagas em suas mãos e pescoço tomando bastante cuidado pois ainda sentia muitas dores. Com movimentos lentos e imprecisos levantou a camisa exibindo o que parecia ser uma grande ferida na barriga.

-Quando acordei, ainda meio cambaleante, aproveitei uma poça para poder observar o meu estado. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o próprio cão olhando nos meus olhos - os órgãos que me olhavam eras os meus, as minhas próprias retinas, como se no fundo estivesse eu mesmo a meter um grande susto em mim. Meu braço esquerdo se levantou numa tentativa vã de segurar as feições que esboçavam um apavoramento na água suja.

Com um leve sorriso nos lábios, o padre solicitou paciência. Foi até a sacristia, retornando após alguns instantes com um bacia de metal e um vaso bojudo de cerâmica. Ao receber água, as feridas do agonizante sumiram. Com o auxilio do retalho da roupa de algum santo, o padre esfregou todas as marcas avermelhadas do aflito homem.

- Não turbe o vosso coração, credes em Deus e em mim. Há muitas moradas na casa de meu pai. Bem-aventurados os que vertem lágrimas pois serão consolados. Você já está limpo pelas palavras que proferi.

Enquanto mirava a sua imagem no fundo da bacia a partir do espelho de água turva, o homem verificou que não tinha mais a cor do tinhoso. Escutou uma canção e a princípio, pensou tratar-se dos sinos da igreja tocando as horas do meio dia, entretanto algo vibrava no bolso da calça – era o toque polifônico do celular.

Parecia acanhado quando terminou a ligação. Acenou para o padre e desapareceu na luz que vinha da porta principal da igreja.

-Vai-te, e não peques mais. - Murmurou o servo de Deus.



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Órgão de Jacobson

Um felino de nariz adunco e grandes bigodes remava a lua minguante. Atravessáramos o espaço em calmaria, porém ao nos aproximarmos da beira-mar, escutamos latidos; o gato inventou tempestade. Agarrou-se ao seu instinto e cortou as vagas com mais intensidade, obrigou-me a dar braçadas na água de maneira que pudesse ajudá-lo rumo a algum outro ponto da praia onde poderíamos atracar com segurança.
O astro refletia a luz intermitente do farol me permitido avistar um estranho objeto a boiar próximo a nossa embarcação. Pedi licença e com o remo improvisei um croque, capturei um bebê que parecia ainda ter o coração pulsando. Cortei na carne um traço e lancei o pequeno corpo em direção ao litoral. Disse ao gato que se acalmasse e não temesse pois os cães ficariam ocupados farejando sangue.
Singramos sem trocar outras palavras. Tínhamos sede e fome. Aproveitamos o bolinar do vento poupando assim as nossas forças.
Miou rompendo o silêncio e passou a repreender com veemência a minha atitude. Discursou durante alguns minutos sobre os direitos humanos e sobre o ser "ser humano" e por eu não ter refletido antes do infanticidium. Que não era necessário proceder da forma como procedi, poderia ter aguardado; procuraríamos outras costas...
Enquanto arrumava alguma justificativa para interromper a série de acusações, nossos corpos projetaram-se levemente para frente com o solavanco da lua ao encalhar num banco de areia.
Desci da embarcação e constatei que a água alcançava os meus joelhos e, vez ou outra, molhava os membros superiores quando ondas mais fortes batiam em meu corpo. Aterrorizou-se com isso e prendeu suas garras em meu pescoço. Compreendi sua aflição e solicitei que se acomodasse melhor e tivesse um pouco mais de calma, sua tremedeira prejudicava a minha visão.
Quando um pouco mais tranquilos, já caminhávamos por terra firme, comentei que ontem, anteontem, trasanteontem - outro dia que não lembro exatamente quando e nem sei se realmente existiu - sonhei que era um gato que olhava através da janela do quarto do meu dono uma grande lua minguante brilhando no ponto de fuga de um céu limpo e estrelado.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

pombo fobia - I

Pra tudo há uma explicação, o fato a ser confessado não escapa dessa sentença. Já de início declaro: Tenho matado os pombos desta cidade, sendo essa uma batalha cotidiana - não há perdão! Mato as aves e dou um jeito naqueles que as alimentam.

Uma vez escutei que essa espécie chegou ao Brasil numa tentativa de Dom não sei quem imitar as praças italianas, de Paris... não faço ideia. Não encontrando predador, o bichinho asqueroso, esse rato de asas, passou a governar plenamente e a quase tomar conta das nossas cidades. Tão parecido quanto o gesto do famoso representante, são essas viúvas que costumam alimentar os pombos nos finais das tardes em determinados locais ou então os pipoqueiros que se acham prestando solidariedade.

Pode parecer cruel, pode não ser bem visto perante as diversas ongs de proteção, mas digo com baba na boca tamanha raiva entre os meus dentes: morte aos pombos! Gerrilha aberta aos pombos! Quem tiver coragem de limpar a nossa cidade das penas sujas dessa espécie de quinta que venha junto! Armas não faltam, na Carioca mesmo podemos comprar de um daqueles rapazes um bocado de chumbinho mata rato. Enquanto o pipoqueiro joga no chão o restante dos grãos, aproveito e lanço um tanto do meu veneno. Está feito, o culpado da morte é o mesmo o qual tentou inocentemente salvar o ladrão. Incontáveis vezes peguei meu carro e segui atropelando pombos pelas ruas e ruelas da cidade, extasiava-me ouvindo a explosão dos pulmões quando o pequeno corpo encontrava o meu parachoque. Na capital esses bichinhos de asas sujas transitam abusadamente pelo asfalto e só levantam voo quando o carro se aproxima, bem perto, bem de perto, perto. Adquiri uma técnica a partir de constantes observações: no momento exato em que impulsionam-se para fora do chão, acelero um pouco mais o meu automóvel e pou! pasta.

Escutei de uma senhorinha enrrugada que quando um casal de pombos faz ninho no telhado é sinal de morte; lembrei do meu pai. Dizem também que ninguém nunca viu filhote de pombo - eu já vi e digo: é feio, feio, feio! Nascem e desenvolvem-se rapidamente, em 15 dias abandonam os bicos dos pais. Acompanhei um familizinha por um bom tempo, fizeram moradia na laje do banheirinho dos fundos da minha casa no litoral - quando eu ainda morava por lá e antes do meu pai falecer. Modelo perfeito do que se pode chamar instituição familiar - modelo perfeito quanto ao que almejamos numa relação sincera e duradoura.

Tive um problema sério de saúde durante o período em que acompanhei a reprodução e desenvolvimento dessa família alojada no alto da minha casa; fiquei de cama, acabado, quase morri. O médico diagnosticou um tipo de bactéria presente nas asas desses bichos leprosos. Desde então comecei a pensar, a planejar um meio de dizimá-los. Faz-se necessário um predador forte e sagaz - enquanto Deus não cria um, disponho-me com mãos firmes nessa empreitada.



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Felis silvestris catus


Laura ainda não entende nada e nem sei se um dia entenderá coisa alguma. Alguma coisa que vá além dos seus impulsos, de comer, de dormir, de morder os meus pés, de rolar pelo chão, de caçar mosquitos e de fazer cocô e xixi na caixinha dela com areia especial. Laura nunca lerá este texto e por isso escrevo pra mim mesmo,em voz alta, chiando nas letras que batem na língua, de maneira que ela não tire os olhos vesgos de cima de mim.


Ela já sentiu que existe uma outra realidade para longe dos muros da minha caverna urbana: sons que invadem o apartamento e o que antes eram sombras nas paredes, transfomaram-se em estranhos objetos móveis nas noites do caloroso verão – assusta-se e pula de volta para o chão após escutar o freio ruidoso do ônibus. O mundo não corresponde mais somente a superfície da mesa, a altura mediana da cadeira, o apoio do sofá e as prateleiras com os livros e discos. Agarra-se nas beiradas e tenta ir além dos limites do apartamento. Observa a porta de entrada escondida entre os sapatos por ali guardados, na primeira oportunidade arrisca-se em fuga. Deixo a pressa e corro em seu resgate.


Em casa tem água, comida, diversão e carícia. Seu instinto felino não compreende gratidão, age como os da mesma espécie. Essa constatação me causa uma certa curiosidade: como pode ela que não conhece outros como ela, como que pode?, como que pode ser como todos os outros gatos são?


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

nocturna moth

Ela está chegando. Sinto o cheiro do cigarro ordinário que costuma comprar. Toda vez que vem meu mundo desmorona e descumpro tudo que a mim mesma havia prometido; esqueço. Amanheço com ela entre os meus braços e em minha boca o gosto amargo de suas doces palavras; seu sexo.

Já escuto os seus passos pelo corredor, daqui a pouco tocará a campainha. Não. Deixei de pegar de volta a cópia da chave. A minha primeira atitude tem que ser essa. Falta coragem para exigir que me deixe em paz. De louca já basta eu. Não posso escutar passivamente os seus lamentos, seus papos de amores frustrados ou sua revelação - ou seria revolução? - sexual tardia. Queria apenas poder abraçar e trocar carícias e dividir responsabilidades. Quando menos esperei, quanto mais avancei, deixei-me a caminhar solitária por sentimentos - falo baixo - amorosos. Em menos de um mês já estava com ela protegida pelas sombras das teias das aranhas; descobrindo cada canto da minha casa. Ela disse que aqui é o nosso ninho de amor e que talvez para mim as lembranças sejam mais fortes. Ninho de amor é cafona, quanto ao resto ela está certa.

É desesperador o cheiro do cigarro dela. Impregnou a sala, o banheiro, o quarto. É um olor abafado, mas que agora está forte - ela vem. Barulho de asas que cessam de bater e na porta do quarto o seu vulto. Ela acende a luz e diz que me admira."Incrível como tudo está da mesma forma, tudo no mesmo lugar desde quando fui embora." Para dentro de mim digo que nada foi mexido para que eu não perdesse a lembrança daquilo que havia entre nós - e continuo ainda mais para dentro - desde ontem, sabendo que hoje você voltaria.

Arrumei forças para esboçar um sorriso e perguntei se estava com fome. Sinceridade tem hora, poderia mentir e dizer que não. Fomos para a cozinha. Não conseguia olhar em seus olhos. Preparei uma limonada suíça. Ela tomou dois copos, eu fiquei sentindo o gosto do primeiro. Queria que sumisse da minha frente o quanto antes.

Bebi um copo d'água e me tranquei no banheiro. Estava perdendo a minha casa para uma estranha. Sim, uma estranha. Quem é essa outra aí que de repente me invade, diz me querer e balbucia muitas outras coisas em meus ouvidos? Nunca fomos amigas e não quero ter essa amizade. Quero sexo e amor e não amor sem sexo.

Desatranco a porta enquanto escovo os dentes. Vejo uma mulher sentada na sala lendo um livro. Meus livros. Sua sombra. É agora. Enxaguo a boca, fecho o registro.

Digo: Você joga comigo sempre na defensiva e acaba revelando o que temo.

Ela movimenta os músculos da bochecha esquerda num "hã?".

Repito: Você joga comigo sempre na defensiva. - De queixo para o alto, assoprando a fumaça. - Acaba assim revelando exatamente o que temo. Segue o seu rumo. Vai embora! Hoje não tem cama, não tem carinho, não tem sexo, não tem nada. Não esqueça de deixar a chave sobre a mesa. Bata a porta quando passar e exploda. Acabou o que nunca existiu.

Depois grito e suplico que retorne. Ela bate as asas e entra pela janela. Preferia que não voltasse, que seguisse o rumo solitária e magoada comigo. Mas não. Estamos nós duas, uma de frente para a outra. Permitimos o beijo e lambemos nossas lágrimas.

Apagando a luz. - era assim que mamãe dizia que os insetos noturnos desapareciam.

De manhã, nós duas nuas e abraçadas. Meus olhos abertos - pena de borboleta; quando começa a estender sua beleza no mundo, morre.



publicado em 10 de abril de 2009

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Anhaia

Ela era obtusa. Pra tudo tinha uma explicação que achava congruente ao ponto de se submeter a situações um tanto perpendiculares. Não foi diferente quando Nestor resolveu procurá-la a fim de dar umazinha, fora direto ao termo e repetiu a proposta: por que não damos umazinha hoje? - Anhaia não respondeu que sim nem que não, depois de ter ficado boquiaberta quando no primeiro momento o rapaz propusera a questão. Consentiu com a cabeça após uns silenciosos vinte e três segundos, figindo refletir se valeria a pena ou não trepar com o ex. Ele não viu a reação dela, apenas escutou o “sim” após leve sonoridade que parecia ser a respiração da moça.

Os dois se entendiam muito bem na cama, no chão e na pia. Quatro anos - tanto tempo de casamento tem sua vantagem, o longo período permitia o despudor, coisa que nenhuma foda perdida entre boate, mercado, trabalho, praia e trânsito possibilitaria. As noites de sexo ao acaso até poderiam ser gostosas, mas pra Anhaia nada era melhor do que o seu querido pinto domesticado que cabia perfeitamente em sua boca e que com gosto provocava a sua boceta.

A relação começou a degringolar quando os dois refletiram que precisavam ter novas experiências - vivendo outros corpos, abrindo a relação pra conhecer novas pessoas. Procuravam dessa forma saber se um sentiria falta do outro. Achavam-se novos demais, estavam nadando num rio caudaloso e profundo; achavam que poderiam ainda viver muitas outras pessoas, muitas outras bocas. A elasticidade do amor não suportou tamanha extensão, vindo a romper quando Anhaia se viu enlouquecida com o tamanho do falo do colega de trabalho, Humberto - pertencia ao RH da empresa de telemarketing onde ela era represetante de serviços.

Foi sob justa causa que terminou a aventura com Humberto, quando Anhaia fotografava o membro rijo dele na escada de incêndio que dava pro terceiro andar. Temendo macular a carteira de trabalho, o colaborador exemplar do RH deu uma determinada quantia ao segurança Jorge. Como Anhaia já tinha rapado o cheque especial pra dar de entrada na câmera digital, acabou não podendo subornar o funcionário. Nesse mesmo dia, após tomar conhecimento de que sua esposa mantinha um amante fixo há mais de três semanas, Nestor propôs que dessem um tempo na relação. Anhaia não teve forças pra contestar. O rapaz não tolerou o espanto da mulher, era humilhante pensar que a esposa não estava bem servida em relação ao tamanho do seu pau - quanto a isso tinha conciência de que nada poderia fazer; era bem verdade que o marido não tinha um dote desses que pudesse tirar onda ao desfilar nos domingos de praia com a desfiada sunga verde desbotada.

Segundas sucederam segundas, domingos a domingos. Anhaia não saia e nem postava mais nada em seu fotolog de putaria, canal utilizado com o intuito de angariar parceiros. Tentou em vão encontrar alguma amiga da época em que ainda era solteira e frequentava os bailes da boate Arraso (“lugar de gente bonita” - essa inscrição ficava na fachada, debaixo do nome da casa de entretenimentos). Josi estava casada e esperava o primeiro filho. Amanda não morava mais na cidade e o seu perfil no Orkut constava que agora trabalhava pra Jesus. Priscila morreu de aneurisma - Joyce contou que todo mundo sabe que na verdade ela teve foi complicações do HIV, “a família tenta porque tenta abafar essa informação”. Joyce era a única remanescente, porém Anhaia não tinha a menor paciência com a fofocaria dela. A antiga ironia da amiga virara um sarcasmo intolerável, prova de alguma frustração. Andar com gente de língua grande e venenosa seria risco certo de ficar muitos anos sem trepar e como consequência, morar pra sempre com a tia mais velha da família.

Anhaia estava enviando currículos por e-mail quando o telefone tocou.

Nestor fodia bem. Anhaia pediu pra que ele esperasse por ela, chegaria em menos de duas horas - prazo razoável pra tomar banho (raspar as partes com um velho barbeador rosa de giletes gastas que sempre deixava sobre o basculante do banheiro) e esperar o ônibus. Do seu apê ao apê do rapaz levaria quarenta minutos.



domingo, 16 de janeiro de 2011

beco

Linhas de pipas tecem teias pelo telhado e nos portais das portas que dão para fora. As crianças dos becos passam o dia todo das férias mirando o céu e correndo atrás dos pássaros de papel. São todas de uma cor torrada, horas e horas debaixo do sol – acordam já com as cabeças nas nuvens.

E é uma gritaria que só, uma correria danada: é minha! é minha! - Um sacolé numa das mãos e na outra a linha presa com uma pedra, marimba.

Um azul desabusado, dia lindo de praia. E as crianças que nada! mergulham fundo no sonho de voar que deve ser ou ter a mesma sensação de nadar, mas ao contrário e sem precisar segurar o nariz. Não são os mesmos meninos do tempo em que eu era pequeno, quieto e ingênuo, porém assemelham-se bastante, diria até que talvez sejam as mesmas, talvez o tempo no beco não tenha passado e nunca faça girar o relógio; seja ali, muito provavelmente, a Terra do Nunca.

Pés no chão, mãos grossas de cerol protegendo os olhos da luminosidade. Miram obsecadamente as estampas coloridas em papel de seda barata que sobrevoam, que sobrevoam, que sobrevoam...

Ainda há pouco, enquanto lia um livro de adulto escrito num português quase alemão de tão dificil e metido a besta, ouvi um barulho de galinha ciscando no cimento. Era o “homem-aranha” de cabeça para baixo, as arestas da pipa batendo no chão e a rabiola embolada e o restante da linha enrolada na fiação de telefone; parecia passarinho tentando voar. Não precisei esperar muito para observar duas mãozinhas com as unhas sujas trepadas no muro, depois os olhinhos arregalados e o nariz assustado compondo um apavoramento com a sobrancelha:

-Tio, pega aí pá mim!

Recomendei calma; para que tivesse calma e descesse do muro. Observei que as pipas nascem rapidinho, todo dia tem uma nova no céu. Gugu abriu um sorriso-moleque. Não lembro dele quando bebê – nasceu crescido, na idade das travessuras; era o terror do beco. No carnaval passado, enquanto corria vigiando a pipa que cortara e seguia planando, foi atropelado por uma kombi. Meti a cabeça na janela procurando o motivo do estrondo. O trânsito estava confuso, como era e continua sendo comum na época do momo. O pequeno surgiu sangrando entre os carros e continuou o trajeto rumo à lagoa onde se limpou e resgatou o papagaio pela rabiola. Uma semana depois vi Gugu todo enfaixado e com gesso numa das pernas – ficara uns três ou quatro dias internado.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

o faroleiro - IV

De manhã, enquanto retornava ao farol, observei uma verga apoiada sobre um mastaréu e uma parte das obras vivas um pouco mais afastada. A maré jusante fez com que revelasse tais estruturas chegadas até aqui durante o preamar. Mais perto verifiquei um cadáver debaixo de toda a regeira, tinha enrolado em seu corpo a linha de vida; vã tentativa de sobreviver ao naufrágio. Detive-me no rosto por onde pequenos caranguejos e outros parasitas atravessavam seus orifícios, o corpo estava inchado; um ou dois dias boiando na maré enchente.
De tudo que chega durante os provimentos quinzenais, faltam vestimentas. Há mais de anos notifiquei ao meu superior, porém nunca nada é feito e por isso costumo proceder da forma como narrarei.
Removi uma parte da estrutura de modo que pudesse recolher a roupa do defunto; coserei as feridas do tecido, lavarei e utilizarei durante os meus serviços. Este aqui agora em minhas mãos não se encontra tão danificado, serão necessários poucos ajustes. O cheiro da deteriorização dos órgãos é nauseoso, no entanto já não me provocam tantas ânsias de vômito como outrora.
Deve haver quem pense ser bonita a vida assim como vivo, isolado, longe de todos os malefícios da humanidade; não sabem que a aqui convivo também entre os piores fantasmas, os piores seres que projeto a partir de cada corpo humano encontrado.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

o faroleiro - III

O mundo é a extensão do meu olhar e um pouco além para onde o dedo avança. À noite vejo mais: quando a luz do farol acaricia a textura da água, quando o mar numa gostosa calmaria e o espelho reflete as luzes do céu. Perco a estabilidade, a certeza, o centro; sem saber se o que vejo é o manto do universo furado: estrelas e outros astros noturnos - misteriosas luzes que passam revelando o fogo do outro mundo; ou a imensidão do oceano em sua silenciosa revolta.
Noite, colcha velha roída pela traça, esgarçada na rotina das horas, amarrotada na torção das nuvens, desbotada com o suor da insônia.
Abro uma das garrafas de vinho – tenho algumas por aqui, armazeno-as no porão, entram escondidas, contrabandeadas quando o navio vem abastecer a ilha. Passo a madrugada bebendo do néctar, do mais puro néctar. Beijo a garrafa contemplando a dança dos bichos marinhos. Acordo com a lambida lânguida dos primeiros raios de sol.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

o faroleiro - II

Desde ontem, como que o dedo fisgado por um anzol, tenho sentido umas pontadas no coração. Não sou jovem tampouco idoso, navego nas águas lúcidas de quem já chegou a um determinado momento da vida em que já começa a aceitar determinadas cosias e não querer outras, vejam bem: não querer não significa rejeitar ou não aceitar, é só não desejar confusão ou evitar de trilhar caminhos demasiadamente tortuosos. Já passei por muita porta pequena, prefiro hoje a solidão desta ilha. Observo do alto da torre aqueles que seguem para o fim e muitos outros que retornam ao cais na esperança de ainda encontrarem esposas e filhos. Já não espero tanto, acho que já nem espero, na verdade não passa mais pela minha cabeça qualquer possibilidade de espera; apenas fico e ou ando ao redor. Não é com pesar que exponho todas essas reflexões, qualquer um veria o quanto não me importo com essa história de felicidade ou tristeza. Tenho apenas que ajeitar os espelhos, averiguar os refletores e as lentes. Tenho também que verificar constantemente o barômetro para saber exatamente que classe de luz acionarei e se será necessário ligar o aviso sonoro na casa de ronca.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

o faroleiro - I

Bem que as ondas podiam bater com mais suavidade nessas pedras, como pequenas volutas de um mar tranquilo.
O barco segue desequilibrando-se na linha fina do horizonte, de longe avisto apenas suas luzes trêmulas. Do outro lado: a boca enorme de um monstro - não é o que vejo daqui até porque a escuridão impossibilita a percepção de qualquer coisa além das duas pequenas luzes da embarcação. Há diversos relatos que dão conta de um dragão que sobrevoa no lado do que não é visto, na quebrada do futuro, lá para o assombro. Os marinheiros quando retornam estão todos com um tom de pele do tipo de quem sofre ou sofreu com fogo. Da boca grande do dragão indomável, inominável, de um tipo que vive e que ninguém nunca viu, no lado de lá do lado, no quedar dos olhos na linha de sombra.
Numa breve estiagem o vento faz mais força e joga água salgada contra a proa, o barco ameça virar ao contrário, efetuar um rodopio, mas a rede de arrasto segura firme a popa na superfície da água. A chuva volta, os relâmpagos revelam o vulto da serpente alada.
Hoje, antes do início da tempestade, enquanto ainda havia calmaria e o barômetro predizia o pior, a energia elétrica foi cortada. Houve algum problema no gerador e o farol não está iluminando - sou o faroleiro – já telegrafei ao meu supervisor no continente. Assisto tudo da janela do meu quarto, sem nada poder fazer além do que já foi feito.


domingo, 26 de dezembro de 2010

Nette Franga

Nette acordou hoje assim: toda, toda. Pulou do poleiro direto para o banheiro onde fez sua higiene matinal. Saiu voada rumo a feira, onde todo sábado inicia as compras tomando um caldo de cana acompanhado por um pastel de palmito feito na hora. Assim que terminou, jogou o copo de plástico e o guardanapo engordurado na lixeira espantando as abelhas que sobrevoavam os restos esmagados do colmo e todo os restinhos adocicados nos poucos copos de plásticos deixados pelos consumidores -ainda era cedo para a sujeirada toda ser feita. Ajeitou as três pulseiras imensas e coloridas que apertavam a pontinha da asa esquerda, deu umas ciscadinha e seguiu para banca de cereais da pata Laura Laurinda.


(acho que continua)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

glória - 8

tendo o rosto retorcido por conta dos soluços, glória adentrou a cozinha de sua casa procurando por um copo, abriu a geladeira e retirou uma garrafa de vinho que ao invés do líquido original encontrava-se preenchida por água mineral. o corpo todo reagia aos espasmos involuntários do diafragma. assim que encheu o copo com a água gelada, a garrafa escorregou e acabou caindo no chão - o soluço passou na hora. por sorte, o objeto quebrou apenas em sua base, glória pegou uma sacola debaixo da pia e recolheu a cativa e antiga garrafa d'água, passando em seguida um pano velho e desbotado pelo chão, secando o aguaceiro derramado com o acidente. ainda mantinha junto ao braço esquerdo o pacote com sete pães do tipo francês, ao levantar com o pano molhado deixou escapar um dos pães que estava sem bico – glória tinha mania de comprar um pão a mais para poder comê-lo no curto trajeto entre a padaria e a casa.
minha filha, faça as coisas com calma. - graça, ao perceber aflição da filha, ajudou-a com os pães depositando-os sobre a mesa: você demorou tanto que resolvi tomar café com as bolachinhas que costumo fazer farofa.
ai, mãe! desculpa! é que aproveitei e fui a casa do marcelo, queria conversar com d. noely sobre a samambaia.
e aí, o que ela disse?
ah! é que a samambaia não está doente não, está se reproduzindo, essas manchinhas são poros, soros... uma coisa assim. o importante é saber que ela está ótima! - lavou as mãos na pia com o detergente e em seguida bebeu a água do copo num só gole; tentava dessa forma escapar de outras perguntas sobre o período em que esteve fora de casa.



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

10

Lá está o barco. Eu cá. Espero. Cheiro de maresia, tempo virando; é chuva. Chuva pra madrugada. E eu cá, esperando. Sempre deixei claro que não poderia, não deveria, mas quis e fez e eu nada, sem contradizer. Vejo o barco se aventurar entre ondas e gaivotas, o vento ficando mais forte e me deixo. Bichinhos brincam entre os meus dedos dos pés e eu deixo e sorrio, fazem cócegas. Daqui a pouco o mar começará a me puxar e eu não serei mais para mim. Meus cabelos cansados largam-se e dançam ao som. Nuvem cinza distante, chuva no canto do lá, alto-mar, quase oceano. E ele navega em seu barquinho, vai, nada. Ficarei por aqui, debaixo d'água, onde minhas lágrimas confundem-se. Cavalo-marinho passeia pelas veias do meu corpo, alegre. Estrela-do-mar, estrela que caiu do céu e deu n'água salgada; enfeite-me, embeleze-me, faça-me dele, daquele que vai. Barco sem vela, barco a motor, barulhinho ritmado, música em harmonia com o galope do barco a cortar a correnteza. Volta, volte, vem. Alga, alga; sempre gostei da palavra algo. Abro a minha boca para entrar, vem. Deito e vou e venho e vou e venho. Areia branca novamente. A maré me deixou, me deitou na beira. Água do céu molha meu corpo. E eu pensando nele que ainda não chegou. Percorri todo o futuro por aqui, longe é um lugar que não existe. Estou. Fico. Espero. Concha.



quinta-feira, 12 de março de 2009

"Que encantamento, no coração!"

Minha voz. Aos poucos descostura-se a renda fina feita de fios de ar, fazendo com que tudo o que era não seja; perco a voz. Fio criador de mundos existentes dentro da pessoa; ficará em seu interior, somente nela. A boca embicada num sopro leve, o tempo sai sem som. Por querer deixar, deixa. Uma paisagem: a pessoa de costas, meio deitada-meio sentada, cotovelos sustentando o corpo, nua, músculos evidentes.



domingo, 1 de março de 2009

há uns quatro anos

moço. diga o que vem a cabeça. bobo. bobo. bobo. vai, sai, diga: amor. com exclamação. eu correria para rua louco de desejo e achando que dessa vez será/seria diferente. melhor: eu correria para rua louco de desejo acreditando - acreditando- que desta vez será diferente.

quando terminamos entrei numa loja de perfumes a procura do seu cheiro. encontrei um parecido. o seu é caro.

não chorei depois.
durante o que vivemos, assim que você ia embora, eu cai dentro de mim. eram tropeços. vinha sempre a ideia de que a qualquer momento me ligaria e acabaria com tudo e no dia seguinte não mais nos abraçaríamos. foi o que ocorreu num dia.


isso tudo é só uma lembrança.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

interdito

Talvez aqui seja o local onde as mãos de deus não alcançam - será que estamos em cima delas? Pai, me pegue no colo e me faça dormir. Preciso de um motivo, uma válvula de escape para ir embora. Sumir e mudar tudo. Sair desse vazio sem esperança. Sussurre em meu ouvido aquela canção. Eu tenho que dormir e você também. Meu estômago grita por comida e faz careta de mim. Somos animais elevados a grandeza da racionalidade - mais fortes que a natureza, além dos instintos. Acho que comi a maça que foi mordida por Adão.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

zona de desejos ao norte

Olhe para a cor dele, é isso que quero beber. Tudo muito simples e claro. Ao mesmo tempo não é superfície: uma vez que nos sujeitamos ao contrário, o óbvio se torna profundo. Ele poderia me querer mais, agora eu que desejo animenos. O céu azul e ensolarado não é possível para esta parte sem praia da cidade. Ele é todo sol. Eu também. No entanto, há diferenças. Sou praia depois das 15, ele de ondas ao meio dia.




raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...