Um felino de nariz adunco e grandes bigodes remava a lua minguante. Atravessáramos o espaço em calmaria, porém ao aproximarmo-nos da beira-mar, escutamos latidos; o gato inventou tempestade. Agarrou-se ao seu instinto e cortou as vagas com mais intensidade, obrigou-me a dar braçadas na água de maneira que pudesse ajudá-lo rumo a algum outro ponto da praia onde atracaríamos com segurança.
O astro refletia a luz intermitente do farol - amarelo, meio opaco, quase âmbar - permitido-me avistar um estranho objeto a boiar próximo a nossa embarcação. Pedi licença e com o remo improvisei um croque, capturei um bebê que parecia ainda ter o coração pulsando. Cortei na carne um traço e lancei o pequeno corpo em direção ao litoral. Disse ao gato que se acalmasse e não temesse pois os cães ficariam ocupados farejando sangue.
Singramos sem trocar outras palavras. Tínhamos sede e fome. Aproveitamos o bolinar do vento poupando assim as nossas forças.
Miou rompendo o silêncio e passou a repreender com veemência a minha atitude. Discursou durante alguns minutos sobre os direitos humanos e sobre o fato mesmo de ser humano e por não ter refletido antes do infanticidium. Não era necessário proceder da forma como procedi, poderia ter aguardado; procuraríamos outras costas - sendo capaz de agir assim com um ser da minha própria espécie o que não faria com ele de espécie diferente, proclamada como inferior, irracional. Enquanto tentava arrumar alguma justificativa para interromper a série de acusações, nossos corpos projetaram-se levemente para frente com o solavanco da lua ao encalhar num banco de areia.
Desci da embarcação e constatei que a água alcançava os meus joelhos e vez ou outra molhava os membros superiores quando ondas mais fortes batiam em meu corpo. Aterrorizou-se com isso e prendeu suas garras em meu pescoço, compreendi e apenas solicitei para que se ajeitasse nas costas pois sua tremedeira prejudicava a minha visão.
Quando um pouco mais tranquilos já caminhávamos por terra firme, comentei que ontem, anteontem, trasanteontem - outro dia que não lembro exatamente quando e nem sei se realmente existiu - sonhei que era um gato que olhava através da janela do quarto do meu dono, uma grande lua minguante brilhando no ponto de fuga de um céu limpo e estrelado.
4 comentários:
É bom navegar luas com o remo de tuas palavras de poeta. Você preenche todos os mares em que nado. Eu fico imaginando esse gato, fico querendo ser ele, de bigodes pontudos em busca dos teus faróis cor de âmbar.
muito bom.
Doido e lindo!
Gosto da maneira calma como termina o conto, depois de tantas impressões tortuosas. É bom voltar ao porto.
Postar um comentário