sábado, 8 de março de 2014

iluminação

na festa dos corpos
o espírito resplandecia
feito estrelas
uma luz ancestral
trazendo sabedoria
cobrindo de flores o mistério

06/03/2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Iluminação

a mãe velha deitada
eternamente grávida
do cristal iluminado
montanha, rocha, pedra
abrigo para os que dançam
em liberdade
a plenitude

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

preto pobre periférico

morro do juramento
são seis suspeitos mortos
disse: suspeitos mortos
negros, mulatos, negros
disse: suspeitos mortos

sexta-feira, 13 de julho de 2012

tropeço (Francisco Novaes e Silva)


Toda dor que não estanca
leva embora o que faz falta.

Toca a pedra o pé e corta;
Sangra e lava a pele nua.

Tem o olhar a sós e sobra;
sombra n’água não se molha.

Cada passo, um cadafalso;
todo um mundo que se torna.

 - tempestade em copo d’água,
uma gota já transborda - 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vânia



Vânia, ainda sonolenta e entediada com a possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las, descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa, deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”. Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava, fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar. De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas, rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que manchavam as folhas e o chão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sobre as feras que habitam qualquer lugar

Há uma pintura na parede do meu quarto cujo autor desconheço e a possibilidade de sabê-lo embaçaria toda a contemplação, todo o espaço para além de mim o qual me mantém totalmente ligado a essa obra. É uma paisagem não muito bem definida: parece um mar em revolta onde projeto um barco numa mancha, perdido entre vagas, na iminência de ser derrotado pelas águas revoltas - o fato de estar ali parado, quase como uma fotografia que capta um instante o qual me parece por demais forte para também fazer com que eu acredite na força do marinheiro girando a nau alucinadamente, tentando salvar-se a si mesmo e a todo o seu corpo que é o próprio barco.
O homem a guiar é o barco sendo guiado, ambos uma extensão sem meio, começo ou fim; cada madeira, cada unha, prego, pelo ou parafuso.
A história lida a partir da imagem pregada em minha parede remete a tantos sonhos, a tantas noites mal dormidas, quando passeava perdido na beirada da colina em calorentas noites solitárias, tentando calar-me, evitando o diálogo com a solidão. Às vezes é preciso estar só, totalmente só.
Algemar a imaginação, essa voz que cisma de tagarelar cá dentro, em qualquer tronco, toco ou pedra e lançar fundo ao afogamento do silêncio absoluto.
Tem uma voz que parece não ressoar dentro de mim, mas que é minha, reconheço minha, a qual tenta a todo custo estabelecer um contato profundo com o universo - leão cuja força forja sua própria jaula de ferro forte, mantendo-se em exibição aos curiosos, provando assim o quão fraco sou ou soa dentro de mim a energia necessária para a revolução do mundo.
A pintura simples, exata em sua forma simples, profunda e complexa como um deus, como a escrita mal escrita e manchada - necessária e tardia.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

#

sabe, andei pensando
que o meu amor é muito perigoso
é um peito aberto que se entrega
à espada lancinante do cavaleiro
cravando-se no ponto médio
entre a cama desarrumada
e a sua mão na maçaneta da porta
sempre quando você vai embora.

21/07/2011.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

cá (Yara Lopes dos Santos)

vamos devagar, pois ando cheia de dor
continuemos no caminho, por favor
pela estrada, toda poeira, o chão, a terra
o rumo seco da palavra sem saliva
nada salva, o chão, a terra

quando falta o fôlego,
o gesto que atesta
limpando o suor

a vista ainda distante
o horizonte que ainda longe
e nem visto de cá perto


terça-feira, 17 de maio de 2011

Vigia Noturno (Francisco Novaes e Silva)

mea noite; sobre a mesa o copo jaz.
através de uma fresta da janela,
a brisa acaricia e atenua
o silêncio e a solidão do rapaz.

longe a madrugada cerca e arrasta
em alto-mar as plêiades e a lua;
feito uma colcha que se abre furada -
imensa! contra luz, por cima da abra.

um copo de café e nada mais,
é tudo que se tem e que se basta
pra sustentar o tempo sobre o cais -
vigília noturna que a vista gasta.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

repouso (Yara Lopes dos Santos)

poucas coisas compreendemos nesse mundo
e de tudo, nada levamos -
a doce certeza do suspiro final

nossos olhos fotografam a imagem
num movimento sobressaltado

a pessoa respira um pouco mais forte
e Expira

daí em diante quem aqui fica
vê na face alheia um adeus
um até breve
um vá com Deus
seja lá o que mais


caixa de sapato