sexta-feira, 13 de julho de 2012

tropeço (Francisco Novaes e Silva)


Toda dor que não estanca
leva embora o que faz falta.

Toca a pedra o pé e corta;
Sangra e lava a pele nua.

Tem o olhar a sós e sobra;
sombra n’água não se molha.

Cada passo, um cadafalso;
todo um mundo que se torna.

 - tempestade em copo d’água,
uma gota já transborda - 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vânia



Vânia, ainda sonolenta e entediada com a possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las, descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa, deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”. Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava, fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar. De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas, rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que manchavam as folhas e o chão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sobre as feras que habitam qualquer lugar

Há uma pintura na parede do meu quarto cujo autor desconheço e a possibilidade de sabê-lo embaçaria toda a contemplação, todo o espaço para além de mim o qual me mantém totalmente ligado a essa obra. É uma paisagem não muito bem definida: parece um mar em revolta onde projeto um barco numa mancha, perdido entre vagas, na iminência de ser derrotado pelas águas revoltas - o fato de estar ali parado, quase como uma fotografia que capta um instante o qual me parece por demais forte para também fazer com que eu acredite na força do marinheiro girando a nau alucinadamente, tentando salvar-se a si mesmo e a todo o seu corpo que é o próprio barco.
O homem a guiar é o barco sendo guiado, ambos uma extensão sem meio, começo ou fim; cada madeira, cada unha, prego, pelo ou parafuso.
A história lida a partir da imagem pregada em minha parede remete a tantos sonhos, a tantas noites mal dormidas, quando passeava perdido na beirada da colina em calorentas noites solitárias, tentando calar-me, evitando o diálogo com a solidão. Às vezes é preciso estar só, totalmente só.
Algemar a imaginação, essa voz que cisma de tagarelar cá dentro, em qualquer tronco, toco ou pedra e lançar fundo ao afogamento do silêncio absoluto.
Tem uma voz que parece não ressoar dentro de mim, mas que é minha, reconheço minha, a qual tenta a todo custo estabelecer um contato profundo com o universo - leão cuja força forja sua própria jaula de ferro forte, mantendo-se em exibição aos curiosos, provando assim o quão fraco sou ou soa dentro de mim a energia necessária para a revolução do mundo.
A pintura simples, exata em sua forma simples, profunda e complexa como um deus, como a escrita mal escrita e manchada - necessária e tardia.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

#

sabe, andei pensando
que o meu amor é muito perigoso
é um peito aberto que se entrega
à espada lancinante do cavaleiro
cravando-se no ponto médio
entre a cama desarrumada
e a sua mão na maçaneta da porta
sempre quando você vai embora.

21/07/2011.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

cá (Yara Lopes dos Santos)

vamos devagar, pois ando cheia de dor
continuemos no caminho, por favor
pela estrada, toda poeira, o chão, a terra
o rumo seco da palavra sem saliva
nada salva, o chão, a terra

quando falta o fôlego,
o gesto que atesta
limpando o suor

a vista ainda distante
o horizonte que ainda longe
e nem visto de cá perto


terça-feira, 17 de maio de 2011

Vigia Noturno (Francisco Novaes e Silva)

mea noite; sobre a mesa o copo jaz.
através de uma fresta da janela,
a brisa acaricia e atenua
o silêncio e a solidão do rapaz.

longe a madrugada cerca e arrasta
em alto-mar as plêiades e a lua;
feito uma colcha que se abre furada -
imensa! contra luz, por cima da abra.

um copo de café e nada mais,
é tudo que se tem e que se basta
pra sustentar o tempo sobre o cais -
vigília noturna que a vista gasta.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

repouso (Yara Lopes dos Santos)

poucas coisas compreendemos nesse mundo
e de tudo, nada levamos -
a doce certeza do suspiro final

nossos olhos fotografam a imagem
num movimento sobressaltado

a pessoa respira um pouco mais forte
e Expira

daí em diante quem aqui fica
vê na face alheia um adeus
um até breve
um vá com Deus
seja lá o que mais


terça-feira, 19 de abril de 2011

desvelamento (Yara Lopes dos Santos)

as gavetas todas vazias,
nenhuma partícula de pó
como se não tivesse sido feita
ainda é árvore, a madeira.

sem segurança pra guardar o segredo,
qualquer guarda pro que se vele.

o sussurro silencioso dentro do ouvido
nada diz e cala.
mesmo pronta a palavra não fala;
a língua almeja lapidá-la:

protege-se rabiscando o papel –
o mistério da letra é carretel
na dobra da fazenda costurada
a idéia que tenta, então revelada.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

sobre o amor

É preciso habitar a solidão -
ver o relevo das crises sanadas;
fundo escavar na razão as camadas,
volvendo toda a poeira do chão.

É preciso habitar a solidão -
banhar-se nas águas do mesmo rio;
sentir toda a resistência do frio,
cortando com meus pés o turbilhão.

Pode então esse amor tornar-se vão
quando não só a ferro e fogo queima?
Contudo, pode contra tudo e teima
só sendo, encantamento e construção.


sábado, 16 de abril de 2011

Sonata ao Luar

Não há porque abrir a carta. Adianto: não há motivo algum para violar o envelope; nada ainda foi escrito, seu conteúdo permanece inexistente no papel que ainda receberá o desenho à lápis em letras finas e perfeitamente elaboradas; por enquanto permanece assim como escrevo. Fora emitida antes que as palavras fossem pensadas e tingissem a superfície lisa que permanece intacta das lágrimas que a enrugará com esperanças de um imediato retorno.

Através de um velho toca discos, a música arranhada bordando a Lua Minguante que se levanta por detrás da montanha. O papel em branco com as linhas vazias, presa numa das mãos dela que olha através da janela, enquanto as cortinas dançam na brisa leve de um pôr do sol de outono.

Ela permanecerá na moldura da casa - não comerá, não dormirá, não defecará e outros nãos -, de pé, permanecerá na moldura da casa. Como se adquirisse asas o papel voará para longe e ela permanecerá com os cotovelos apoiados na janela, uma das mãos aparando o queixo e a outra meio que caida para fora refletindo a brancura do papel que ali já não encontra mais clausura.

Suave tema principal: a exposição reverberando ad infinitum uma sonata para piano em dó sustenido menor alisando com as unhas um piano adornado por um vaso de flores, piano armário, sem a opulência de um piano de caldas - tão vaidoso quanto: sobressaindo um retrato em preto e branco sobre o qual descrevem-se dois sorrisos e as flores roxas do vaso que se apoia na deselegância do seu porte vertical. O teclado fechado, suas cordas numa tensão constante, o martelo parado.

A luz prateada e quase azul preenche a expressão do rosto da moça, tem a boca curvada para baixo e os cotovelos apoiados no quadro da casa.

As letras tomam os seus lugares dentro do envelope, anseiam um final feliz.



caixa de sapato