quinta-feira, 19 de novembro de 2009

hoje

o riacho que desliza
vira queda d'água, cachoeira
no espaço que faz margem
entre o ontem e o amanhã
a beira.



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lugar Comum - composição: João Donato e Gilberto Gil

sábado, 14 de novembro de 2009

para lá

tenho atravessado sinais abertos andando bem devagar pela faixa de pedestres, fingindo acreditar no acaso.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

sampa - rio

cheguei na hora errada
quando talvez poderia, poderia
um ombro pra chorar
um abraço apertado pra salvar da agonia

a chuva na janela
a resposta que não vem
prados verdes, volto agora
recosto minha cabeça com saudade
daquilo tudo que não fizemos depois



sábado, 31 de outubro de 2009

preguiça

De Ouro Preto

sábado, 24 de outubro de 2009

luva de boxe

estava tentando sair sem ser incomodado, quando a síndica me chamou:
--- você escutou alguma coisa durante a madrugada?

não sabia o que ela queria ouvir, fiquei por um breve tempo sem resposta, pensando no que responder. disse que não, apenas o barulho do piso de metal utiliado pela empresa de gás para tapar os buracos que realizam no asfalto.
--- até parece tiro. - ressaltei sorrindo.

foi então que ela me revelou que o prédio havia sido assaltado às 3:30 da manhã:
--- fizeram a limpa no 306. foi logo depois que o casal foi para a cama, parece que o marido ronca muito alto, por isso que não escutaram e nem viram nada. a menina só foi perceber que tinha acontecido alguma coisa quando estava saindo para o trabalho, foi pegar o notebook e o celular, não encontrou os objetos. ligou para a polícia na hora, eles vieram aqui, fizeram várias perguntas e disseram que voltariam para realizar a perícia. acharam uma luva de boxe...

--- deve ser para quebrar o vidro da janela. - interrompi.

--- ficamos sabendo agora há pouco que a academia aqui do lado também foi assaltada.

esbocei uma conclusão:
--- quer dizer então que o ladrão entrou pela frente, pela academia...

--- sim. da academia ele subiu no terraço daqui, arrombou a porta e entrou no 306. provavelmente a porta não estava trancada. tenho até que pedir para o meu marido mandar vir alguém para consertar a minha porta, imagina se esse bandido vem para o segundo andar! tão dizendo, olha não tenho preconceito nenhum, é só o que estão dizendo, que foi um crioulo alto e magro. tem outras histórias de assaltos nas ruas de trás.

peguei meu celular novo para verificar a hora, já estava atrasado. pedi licença, tinha que ir. ao passar pela portaria esbarrei num policial que segurava uma maleta prateada, "deve ser para tirar as impressões digitais" falei pra dentro. ele me olhou, nos observamos por uns 5 segundos, desviei a atenção para guardar a chave na mochila, nos encaramos mais uma vez; senti o quanto que a minha bolsa estava pesada.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo no cinema - como desenhar círculos perfeitos

quem espera alguém não se oculta num canto qualquer do café.

uma pena não fumar, poderia ir lá pra fora fazer hora.

mas não... compro uma fatia de bolo e um expresso só pra ter o que fazer. e quando acabar?

ainda faltam duas horas para começar o filme.

como o último pedaço do bolo de chocolate e dou a última golada na bebida; vejo o fundo branco manchado da xícara.

olho o horário da sessão no bilhete, depois procuro alguma coisa olhando através da porta de vidro, pego o celular e finjo ter recebido uma mensagem. ensaio um sorriso. guardo o aparelho no bolso lateral direito da calça jeans.

a ideia era ficar só, mas acabo me sentindo acompanhando entre tantos, compartilhando uma espécie de solidão coletiva. todos exercendo o desengajamento emocional através do ritual tecnológico contemporâneo... nem sei exatamente o que isso quer dizer - li num livro antes de chegar aqui. mas as ações são muito parecidas, uma dança muda, um teatro mudo,uma história sobre isolamentos isolados. desinsolação. não há tristeza, não há melancolia, nem alegria... é um ponto final, uma mente vazia sem misticismos.

deix'eu chover.




segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ponto de ônibus

a senhora não olha pro lado e pro outro não, olhe pra frente - pra Deus! pra Deus! Jesus andou descalço pedindo dinheiro e comida e a senhora nem olha nos meus olhos.




segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mercedes Sosa - Ay Este Azul

sábado, 26 de setembro de 2009

saida rápida

faz um barulho danado naquela esquina onde os aposentados penduram suas gaiolas entre as árvores em frente ao bar; tomam a cerveja de sexta-feira enquanto os pássaros gritam contra o calor do meio dia.

não falar mais comigo, caminhar, caminhar e não escutar a minha própria voz que diz gracejos ao pé do ouvido.

tem helicópteros no céu. dois. sirenes de ambulância e corpo de bombeiros. algo acontece ou aconteceu.

depositar o dinheiro no banco, passar na papelaria e comprar uns bloquinhos para rascunhos; voltar correndo para terminar as leituras.

as pessoas interrompem os passos e olham para o alto, para uma das janelas por onde escapa uma fumaça negra.

lembro: o cigarro! o cigarro!