sábado, 14 de novembro de 2009

para lá

tenho atravessado sinais abertos andando bem devagar pela faixa de pedestres, fingindo acreditar no acaso.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

sampa - rio

cheguei na hora errada
quando talvez poderia, poderia
um ombro pra chorar
um abraço apertado pra salvar da agonia

a chuva na janela
a resposta que não vem
prados verdes, volto agora
recosto minha cabeça com saudade
daquilo tudo que não fizemos depois



sábado, 31 de outubro de 2009

preguiça

De Ouro Preto

sábado, 24 de outubro de 2009

luva de boxe

estava tentando sair sem ser incomodado, quando a síndica me chamou:
--- você escutou alguma coisa durante a madrugada?

não sabia o que ela queria ouvir, fiquei por um breve tempo sem resposta, pensando no que responder. disse que não, apenas o barulho do piso de metal utiliado pela empresa de gás para tapar os buracos que realizam no asfalto.
--- até parece tiro. - ressaltei sorrindo.

foi então que ela me revelou que o prédio havia sido assaltado às 3:30 da manhã:
--- fizeram a limpa no 306. foi logo depois que o casal foi para a cama, parece que o marido ronca muito alto, por isso que não escutaram e nem viram nada. a menina só foi perceber que tinha acontecido alguma coisa quando estava saindo para o trabalho, foi pegar o notebook e o celular, não encontrou os objetos. ligou para a polícia na hora, eles vieram aqui, fizeram várias perguntas e disseram que voltariam para realizar a perícia. acharam uma luva de boxe...

--- deve ser para quebrar o vidro da janela. - interrompi.

--- ficamos sabendo agora há pouco que a academia aqui do lado também foi assaltada.

esbocei uma conclusão:
--- quer dizer então que o ladrão entrou pela frente, pela academia...

--- sim. da academia ele subiu no terraço daqui, arrombou a porta e entrou no 306. provavelmente a porta não estava trancada. tenho até que pedir para o meu marido mandar vir alguém para consertar a minha porta, imagina se esse bandido vem para o segundo andar! tão dizendo, olha não tenho preconceito nenhum, é só o que estão dizendo, que foi um crioulo alto e magro. tem outras histórias de assaltos nas ruas de trás.

peguei meu celular novo para verificar a hora, já estava atrasado. pedi licença, tinha que ir. ao passar pela portaria esbarrei num policial que segurava uma maleta prateada, "deve ser para tirar as impressões digitais" falei pra dentro. ele me olhou, nos observamos por uns 5 segundos, desviei a atenção para guardar a chave na mochila, nos encaramos mais uma vez; senti o quanto que a minha bolsa estava pesada.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo no cinema - como desenhar círculos perfeitos

quem espera alguém não se oculta num canto qualquer do café.

uma pena não fumar, poderia ir lá pra fora fazer hora.

mas não... compro uma fatia de bolo e um expresso só pra ter o que fazer. e quando acabar?

ainda faltam duas horas para começar o filme.

como o último pedaço do bolo de chocolate e dou a última golada na bebida; vejo o fundo branco manchado da xícara.

olho o horário da sessão no bilhete, depois procuro alguma coisa olhando através da porta de vidro, pego o celular e finjo ter recebido uma mensagem. ensaio um sorriso. guardo o aparelho no bolso lateral direito da calça jeans.

a ideia era ficar só, mas acabo me sentindo acompanhando entre tantos, compartilhando uma espécie de solidão coletiva. todos exercendo o desengajamento emocional através do ritual tecnológico contemporâneo... nem sei exatamente o que isso quer dizer - li num livro antes de chegar aqui. mas as ações são muito parecidas, uma dança muda, um teatro mudo,uma história sobre isolamentos isolados. desinsolação. não há tristeza, não há melancolia, nem alegria... é um ponto final, uma mente vazia sem misticismos.

deix'eu chover.




segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ponto de ônibus

a senhora não olha pro lado e pro outro não, olhe pra frente - pra Deus! pra Deus! Jesus andou descalço pedindo dinheiro e comida e a senhora nem olha nos meus olhos.




segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mercedes Sosa - Ay Este Azul

sábado, 26 de setembro de 2009

saida rápida

faz um barulho danado naquela esquina onde os aposentados penduram suas gaiolas entre as árvores em frente ao bar; tomam a cerveja de sexta-feira enquanto os pássaros gritam contra o calor do meio dia.

não falar mais comigo, caminhar, caminhar e não escutar a minha própria voz que diz gracejos ao pé do ouvido.

tem helicópteros no céu. dois. sirenes de ambulância e corpo de bombeiros. algo acontece ou aconteceu.

depositar o dinheiro no banco, passar na papelaria e comprar uns bloquinhos para rascunhos; voltar correndo para terminar as leituras.

as pessoas interrompem os passos e olham para o alto, para uma das janelas por onde escapa uma fumaça negra.

lembro: o cigarro! o cigarro!




quinta-feira, 24 de setembro de 2009

uma carta para o pequeno príncipe

a flor murchou, quase morrendo. já molhei a terra, a única coisa que posso ou sei fazer para ajudá-la. não fala, não grita, não sinalizou socorro. eu passava todo dia pelo vaso e ela estava lá toda verde.

andava cuidando de mim e acreditei segurança em você, ou nem pensei nada - estava apenas cuidando de mim mesmo.

olha o erasmo cantando!

não me enlouqueça ou projete suas loucuras em mim, já tenho tantas. sou o mesmo, mas os fios brancos começam a pintar os meus cabelos, cada vez que me olho no espelho aparecem outros.

veja: olá! .rs. é um olá com sorriso, dizendo que realmente está tudo bem e querendo te deixar tranquilo para falar o que quiser. e outra, tenho riso frouxo, isso transparece até quando escrevo nesses aplicativos para conversas virtuais. o que você quer ouvir de mim? se quiser eu falo. fala que eu te escuto. pergunte - fica mais fácil responder do que começar a falar de mim assim, do nada.

tenho usado outros perfumes. ganhei dois perfumes no final do ano passado, um francês (que não sei o nome, nem sei se é orginal - mas é bem gostoso) e um outro nacional. essas essências presentificam os ausentes. lembro do seu cheiro, ótimas lembranças. você não reconhece o seu olor porque usa sempre o mesmo perfurme.

tem um cara falando em espanhol na tv, fala de terapias convencionais e não sei o quê.

olho para o lado e vejo a plantinha que passou do verde para o marrom. não há mais nada a fazer. nem sei mais se quero ter plantas em minha residência. essa foi a primeira e durou até hoje, várias passaram por aqui, essa ficou e agora parece que chegou a hora de partir. dizem que as plantas somatizam os males da casa; penso: antes ela do que eu. significa que tenho que arrumar uma outra, não quero problemas pra cima de mim.

na verdade, desconfio que os fios brancos sejam fios descoloridos; tenho usado um gel para espinhas. mas a idade chegou mesmo, disso não tenho dúvidas; o joelho esquerdo anda doendo.

todo possível começo nos abala, nos desterritorializa, ficamos sem cais. esquecemos de todas as nossas experiências e caimos num abismo, despecamos como a Alice na toca do coelho. estou sendo um pouquinho sentimental. você pediu para falar e estou eu aqui falando. se quiser podemos encaminhar melhor o papo. estou me justificando, você disse que não acreditou em mim na segunda vez que tentamos namorar. estou aqui dizendo que você nunca conseguirá entrar na minha cabeça, adivinhar meus pensamentos, o melhor é confiar e viver o momento. talvez eu tenha te assustado fingindo-me seguro quando na verdade estava com medo do que poderia acontecer e que acabou acontecendo.

as canções que mando para os meus amantes não são declarações de amor, são declarações de vida. foi somente para você que escrevi algumas cartas de amor, fiz alguns presentes. o que você fez com os meus desenhos? na época, o que me fez sumir de você foi outra coisa. vai me dizer que jogou fora os meus desenhos?

só para lembrar:
"fiquei na chuva tentando falar contigo, te procurando e nada"
meus amigos salvaram minha noite, sai com eles; salvaram-me de uma possível gripe. salvaram-me de você. acho que na mesma madruga te mandei um email e você me respondeu que teve que ir ao cinema com uns contatos. mandei uma última mensagem virtual e fiz disso um fim. não guardei mágoa alguma. as relações são assim mesmo, acontece de ser assim algumas vezes.

agora estou só. antes era eu e a plantinha. agora estou só.

cansei da síndrome de Geni, vou fugir no zeppelin!


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planta e vaso



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

alice na toca do coelho

são agora... olha a hora! olha a hora! 16:54. o ônibus parado, não roda; já estou atrasado. nuvens pesadas lá no céu. vento, ventania, ventando. sacola de plástico voando. o coelho da alice passa correndo, dizendo que tem pressa. 18 horas. barquinho de papel na baia. a moça com o guarda-chuva ao contrário, segura a saia para não exibir a calcinha.