tudo que é dito
- posto no mundo -
ecoa pra sempre
mesmo quando
todo mundo
mudo
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
terça-feira, 13 de agosto de 2019
sábado, 10 de agosto de 2019
quarta-feira, 24 de julho de 2019
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
iluminação
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
iluminação
desse gosto que não se prova com a língua
experimentamos no corpo sutil o sabor da beleza
para fazer o que se almeja
sem a ninguém prejudicar
evoluir nas águas doces dos mistérios sagrados
nenhum sentido é capaz
de tocar as mãos dos deuses
experimentamos no corpo sutil o sabor da beleza
para fazer o que se almeja
sem a ninguém prejudicar
evoluir nas águas doces dos mistérios sagrados
nenhum sentido é capaz
de tocar as mãos dos deuses
sexta-feira, 13 de julho de 2012
tropeço
Toda dor que não estanca
leva embora o que faz falta.
Toca a pedra o pé e corta;
Sangra e lava a pele nua.
Tem o olhar a sós e sobra;
sombra n’água não se molha.
Cada passo, um cadafalso;
todo um mundo que se torna.
- tempestade em copo d’água,
uma gota já transborda -
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Vânia
Vânia, ainda sonolenta e entediada com a
possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para
baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz
difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num
gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o
que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um
pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas
paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos
nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na
boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia
ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o
rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte
maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que
estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no
rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave
olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia
levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer
cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca
e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada
com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse
no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus
olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o
chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas
imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las,
descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta
fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa,
deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa
balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um
silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e
absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”.
Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia
dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava,
fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e
se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus
ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de
sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar.
De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse
estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na
floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a
incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço
de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de
radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas,
rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se
prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que
manchavam as folhas e o chão.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
cá
vamos devagar, pois ando cheia de dor
continuemos no caminho, por favor
pela estrada, toda poeira, o chão, a terra
o rumo seco da palavra sem saliva
nada salva, o chão, a terra
continuemos no caminho, por favor
pela estrada, toda poeira, o chão, a terra
o rumo seco da palavra sem saliva
nada salva, o chão, a terra
quando falta o fôlego,
o gesto que atesta
limpando o suor
a vista ainda distante
o horizonte que ainda longe
e nem visto de cá perto
limpando o suor
a vista ainda distante
o horizonte que ainda longe
e nem visto de cá perto
#
sabe, andei pensando
que o meu amor é muito perigoso
é um peito aberto que se entrega
à espada lancinante do cavaleiro
cravando-se no ponto médio
entre a cama desarrumada
e a sua mão na maçaneta da porta
sempre quando você vai embora.
sábado, 18 de setembro de 2010
sobre essas coisas aí que você diz não saber como chamar
Se não tem nome, é porque ainda não apareceu mão a cantar a pedra: isto é isto. aquilo é aquilo.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
em delírio - VI
O rosto sobre o lençol meio Mondrian - espelho de Narciso em que meus olhos se aprofundam.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
em delírio - V
Deve ser assim quando tudo desaba. A poeira da areola, todo o resto da construção sobre nós. O ar rarefeito. Escombros, água e escuridão.
sábado, 11 de setembro de 2010
sudeste, nordeste
A ventania que descompassa a correria do tempo. Dependendo da direção faz atrasar compromissos ou contribui com a espera do adiantado.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
em delírio - IV
A janela. Duas asas para o céu. Três estrelas. Não há vento, a noite parada, paralizada, pausada. Madrugada de abismo. Ele deitado na cama e os olhos atentos a qualquer risco de luz. Uma hora depois, o sentimento profundo, o raio rápido, fatal. Aquele instante infinito era o sentido do fio frágil da vida - devia dormir e guardar a lembrança, mas preferiu manter-se acordado contemplando eternamente o universo que parecia em expansão.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
em delírio - III
Tateava procurando o que nele havia e que também rijo no outro encontraria. Escuro, luz rasteira penetrando levemente sob a porta. Escuridão, os olhos cerrados evitando para si qualquer risco de revelação. Noite funda; tempo fechado, sem lua. Alertávamos a qualquer frêmito, escondíamos o rosto contra o travesseiro; dormíamos. Esse desejo que de mim a saudade faz busca e que naquele por tanto tempo fora saciado; hoje, mesmo não havendo qualquer contra-vontade, apenas coloca-se em lembrança.
domingo, 5 de setembro de 2010
ruínas do convento
Quando muda. Há pergunta? Silêncio de parede.
Um ruído de memória. Tantas vozes gritando para dentro e uma agudeza, um resmungo sem som do lado de fora - seria tão simples perguntar: tudo bem?
A parede do convento encerra o cheiro de antigos rituais e filtra o som que pulsa do outro lado. Infiltração. Quanto do que não digo há em mim quando de mim se reflete? É o som do sangue circulando pelas artérias.
O reboco perfeito de outrora era a infância, agora revela a estrutura precária que sustentara o prédio por tantos anos.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
em delírio - II
prédios altos
sombra de avião
janela de ônibus
helicóptero parado no céu
escada rolante
túnel
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
em delírio - I
Eu. Eu. Eu. Ecoa. Esse eu ecoa. Tenho que chegar mais perto da parede. Essa imagem daqui de dentro: feijão bem temperado na frente da televisão, a casa velha, meu irmão se preparando para a escola. Eu vôo, é como se já tivesse experimentado essa possibilidade - é tão real! Ontem acordei pensando nisso e parece que de repente essa confusão ficou entendida, sonho. Não sei se foi ontem ou se foi hoje: uma igreja grande, uma catedral e aquele cheiro e silêncio de parede. Eu fiz alguma graça com a voz, um vocalize talvez, e ecoou. Entrei numa sala, uma capela e já não lembro mais. Hoje de manhã enquanto vinha para cá, deixei-me na poltrona do ônibus, ar seco, um calor não tão quente e o trânsito, o trânsito e pensei: isso daqui também é um pouco de mim, essa cidade, esse fracasso, esse fracasso de cidade.
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raso
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