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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

terça-feira, 13 de agosto de 2019

sábado, 10 de agosto de 2019

acumulador
de termos inauditos
- objetos indiretos
jogados
no canto
da garganta

orações
desarticuladas
na ponta
da língua
seca

quarta-feira, 24 de julho de 2019

já não falam mais
as paredes em
vigílias riscadas
nas noites profundas

d'aljube escuro e
fundo, mais profundo
ecoa longe o
côncavo silêncio

sexta-feira, 28 de junho de 2019

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

iluminação


pela primeira vez olhou para o sol. caminhando, perdido, vagando sem um destino preciso. naquele momento, seu corpo entregue a uma silenciosa perturbação, contemplava o disco solar, e, como que diante de uma força superior, rogou por um milagre. num instante, que poderia ter sido uma eternidade, lembrou do alimento milagroso que o povo israelita recebera de javé enquanto peregrinava rumo a terra prometida. há dias em solidão e silêncio. há algumas horas em solidão e silêncio. 40 dias perdido - não existe noite pra quem caminha pelo deserto. sabia-se apenas ali, naquele momento, entregando-se a insolação, o corpo inerte na areia, olhos abertos em miração. pela primeira vez olhou para o sol e rogou por um milagre. o maná do deserto. “Eloi, Eloi lamá sabactani? Aceito a morte, se assim tiver que ser, mas pra ti que tudo é possível, imploro por um milagre! Genetheto to théléma sou.” contemplou a luz e o calor. por entre suas pernas surgiu um escorpião. via sem ver. sentiu o  toque do ferrão do animal peçonhento em seu corpo. uma tempestade de areia modificou o cenário. o homem deitado no chão do deserto. o corpo inerte, olhos abertos, vazios. anos se passaram. o homem, o homem, sua pele morta, os olhos vazados. a terra engolia em sucessivas ventanias, o corpo inerte, maculado pelo tempo. o couro curtido, a pele vazia. a areia do deserto.



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

iluminação

desse gosto que não se prova com a língua
experimentamos no corpo sutil o sabor da beleza

para fazer o que se almeja
sem a ninguém prejudicar
evoluir nas águas doces dos mistérios sagrados

nenhum sentido é capaz
de tocar as mãos dos deuses

sexta-feira, 13 de julho de 2012

tropeço


Toda dor que não estanca
leva embora o que faz falta.

Toca a pedra o pé e corta;
Sangra e lava a pele nua.

Tem o olhar a sós e sobra;
sombra n’água não se molha.

Cada passo, um cadafalso;
todo um mundo que se torna.

 - tempestade em copo d’água,
uma gota já transborda - 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vânia



Vânia, ainda sonolenta e entediada com a possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las, descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa, deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”. Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava, fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar. De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas, rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que manchavam as folhas e o chão.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

cá

vamos devagar, pois ando cheia de dor
continuemos no caminho, por favor
pela estrada, toda poeira, o chão, a terra
o rumo seco da palavra sem saliva
nada salva, o chão, a terra

quando falta o fôlego,
o gesto que atesta
limpando o suor

a vista ainda distante
o horizonte que ainda longe
e nem visto de cá perto


#

sabe, andei pensando
que o meu amor é muito perigoso
é um peito aberto que se entrega
à espada lancinante do cavaleiro
cravando-se no ponto médio
entre a cama desarrumada
e a sua mão na maçaneta da porta
sempre quando você vai embora.

sábado, 18 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

em delírio - V

Deve ser assim quando tudo desaba. A poeira da areola, todo o resto da construção sobre nós. O ar rarefeito. Escombros, água e escuridão.


sábado, 11 de setembro de 2010

sudeste, nordeste

A ventania que descompassa a correria do tempo. Dependendo da direção faz atrasar compromissos ou contribui com a espera do adiantado.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

em delírio - IV

A janela. Duas asas para o céu. Três estrelas. Não há vento, a noite parada, paralizada, pausada. Madrugada de abismo. Ele deitado na cama e os olhos atentos a qualquer risco de luz. Uma hora depois, o sentimento profundo, o raio rápido, fatal. Aquele instante infinito era o sentido do fio frágil da vida - devia dormir e guardar a lembrança, mas preferiu manter-se acordado contemplando eternamente o universo que parecia em expansão.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

em delírio - III

Tateava procurando o que nele havia e que também rijo no outro encontraria. Escuro, luz rasteira penetrando levemente sob a porta. Escuridão, os olhos cerrados evitando para si qualquer risco de revelação. Noite funda; tempo fechado, sem lua. Alertávamos a qualquer frêmito, escondíamos o rosto contra o travesseiro; dormíamos. Esse desejo que de mim a saudade faz busca e que naquele por tanto tempo fora saciado; hoje, mesmo não havendo qualquer contra-vontade, apenas coloca-se em lembrança.


domingo, 5 de setembro de 2010

ruínas do convento

Quando muda. Há pergunta? Silêncio de parede.
Um ruído de memória. Tantas vozes gritando para dentro e uma agudeza, um resmungo sem som do lado de fora - seria tão simples perguntar: tudo bem?
A parede do convento encerra o cheiro de antigos rituais e filtra o som que pulsa do outro lado. Infiltração. Quanto do que não digo há em mim quando de mim se reflete? É o som do sangue circulando pelas artérias.
O reboco perfeito de outrora era a infância, agora revela a estrutura precária que sustentara o prédio por tantos anos.



quinta-feira, 2 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

em delírio - I

Eu. Eu. Eu. Ecoa. Esse eu ecoa. Tenho que chegar mais perto da parede. Essa imagem daqui de dentro: feijão bem temperado na frente da televisão, a casa velha, meu irmão se preparando para a escola. Eu vôo, é como se já tivesse experimentado essa possibilidade - é tão real! Ontem acordei pensando nisso e parece que de repente essa confusão ficou entendida, sonho. Não sei se foi ontem ou se foi hoje: uma igreja grande, uma catedral e aquele cheiro e silêncio de parede. Eu fiz alguma graça com a voz, um vocalize talvez, e ecoou. Entrei numa sala, uma capela e já não lembro mais. Hoje de manhã enquanto vinha para cá, deixei-me na poltrona do ônibus, ar seco, um calor não tão quente e o trânsito, o trânsito e pensei: isso daqui também é um pouco de mim, essa cidade, esse fracasso, esse fracasso de cidade.


raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...