sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vânia



Vânia, ainda sonolenta e entediada com a possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las, descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa, deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”. Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava, fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar. De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas, rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que manchavam as folhas e o chão.

Um comentário:

asth disse...

toda árvore é uma mulher que acordou num dia desses, Vânia...

caixa de sapato