segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sobre as feras que habitam qualquer lugar

Há uma pintura na parede do meu quarto cujo autor desconheço e a possibilidade de sabê-lo embaçaria toda a contemplação, todo o espaço para além de mim o qual me mantém totalmente ligado a essa obra. É uma paisagem não muito bem definida: parece um mar em revolta onde projeto um barco numa mancha, perdido entre vagas, na iminência de ser derrotado pelas águas revoltas - o fato de estar ali parado, quase como uma fotografia que capta um instante o qual me parece por demais forte para também fazer com que eu acredite na força do marinheiro girando a nau alucinadamente, tentando salvar-se a si mesmo e a todo o seu corpo que é o próprio barco.
O homem a guiar é o barco sendo guiado, ambos uma extensão sem meio, começo ou fim; cada madeira, cada unha, prego, pelo ou parafuso.
A história lida a partir da imagem pregada em minha parede remete a tantos sonhos, a tantas noites mal dormidas, quando passeava perdido na beirada da colina em calorentas noites solitárias, tentando calar-me, evitando o diálogo com a solidão. Às vezes é preciso estar só, totalmente só.
Algemar a imaginação, essa voz que cisma de tagarelar cá dentro, em qualquer tronco, toco ou pedra e lançar fundo ao afogamento do silêncio absoluto.
Tem uma voz que parece não ressoar dentro de mim, mas que é minha, reconheço minha, a qual tenta a todo custo estabelecer um contato profundo com o universo - leão cuja força forja sua própria jaula de ferro forte, mantendo-se em exibição aos curiosos, provando assim o quão fraco sou ou soa dentro de mim a energia necessária para a revolução do mundo.
A pintura simples, exata em sua forma simples, profunda e complexa como um deus, como a escrita mal escrita e manchada - necessária e tardia.



caixa de sapato