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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sobre as feras que habitam qualquer lugar

Há uma pintura na parede do meu quarto cujo autor desconheço e a possibilidade de sabê-lo embaçaria toda a contemplação, todo o espaço para além de mim o qual me mantém totalmente ligado a essa obra. É uma paisagem não muito bem definida: parece um mar em revolta onde projeto um barco numa mancha, perdido entre vagas, na iminência de ser derrotado pelas águas revoltas - o fato de estar ali parado, quase como uma fotografia que capta um instante o qual me parece por demais forte para também fazer com que eu acredite na força do marinheiro girando a nau alucinadamente, tentando salvar-se a si mesmo e a todo o seu corpo que é o próprio barco.
O homem a guiar é o barco sendo guiado, ambos uma extensão sem meio, começo ou fim; cada madeira, cada unha, prego, pelo ou parafuso.
A história lida a partir da imagem pregada em minha parede remete a tantos sonhos, a tantas noites mal dormidas, quando passeava perdido na beirada da colina em calorentas noites solitárias, tentando calar-me, evitando o diálogo com a solidão. Às vezes é preciso estar só, totalmente só.
Algemar a imaginação, essa voz que cisma de tagarelar cá dentro, em qualquer tronco, toco ou pedra e lançar fundo ao afogamento do silêncio absoluto.
Tem uma voz que parece não ressoar dentro de mim, mas que é minha, reconheço minha, a qual tenta a todo custo estabelecer um contato profundo com o universo - leão cuja força forja sua própria jaula de ferro forte, mantendo-se em exibição aos curiosos, provando assim o quão fraco sou ou soa dentro de mim a energia necessária para a revolução do mundo.
A pintura simples, exata em sua forma simples, profunda e complexa como um deus, como a escrita mal escrita e manchada - necessária e tardia.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

I

(Joana Rabelo , Marcelo Asth, Rafael Rodrigues)

Sonâmbulo passo por dentro da Lua
Olhando por baixo crateras soturnas.
Longe,
noturnas estrelas traçam Saturno.
Flutuando por fora do espaço.
Do quarto Orion.
No turno.
Rastreio cadências e decadências
no vasto de uma nebulosa que passa.
Expandindo alastro
horizontes de antes dormindo.

Rio, 8 de dezembro de 2010.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

bilhete

a rosa vermelha desabrochando
dentro de uma garrafa de vinho
no chão da sala.

cuidarei dela
até que seja renovada
num próximo encontro (ou antes).

o tempo dela é o limite
de um novo sorriso teu
aqui em casa.


domingo, 24 de outubro de 2010

Extenso Rio

aos poucos nos estendemos pela cidade:
Botafogo,
Urca,
Copa,
Lapa,
Gloria.

nosso lance se entende a cada esquina.
debaixo das marquises -
sorrindo para as câmeras de segurança.

entre beijos,
contra o vento -
as mãos ajeitando os cabelos bagunçados.

suor de tanto caminhar.
choro alegre de uma tristeza feliz -
que é o breve tempo quando estamos juntos.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

brotarão

sobre quem ama
há que se supor
que da flor reste apenas seu espinho
das sementes espalhadas
algumas brotam, morrem
e um broto fura terra e vinga
se vinga
nasce, cresce, fura, espinha

Qual o cupido
pensarão
acerta a flecha no amante
morte, paixão
se vinga

se vinga, Aarão!
se vingarão?
se vingarão!
se vinga...


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

de cabeça

passado o compasso da hora
para afinar o tom da resposta
recorda a introdução que arranjara
enquanto a música se arrasta
sempre é tarde demais
nunca cedo o bastante


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

nos olhos

a gente se fala sem fala
sorriso em canto de boca
dançamos no meio da sala
- ninguém vê nada -
passado e futuro presentes
segredo a dois guardado


terça-feira, 12 de outubro de 2010

madrugada.
através dos espelhos do quarto:
olhos, pernas, mãos, costas, bocas -
múltiplos nós
num gozo atados.

madrugada.
teu cheiro em minhas mãos arrolado.

dormirei lembrando
dos afrescos que pintamos
na capela da volúpia,
entre profanações arrulhadas

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

alindar

pra Ana Cláudia Lomelino

olhos de pérola
quando a luz ofuscante
jóia brilhante
gota de orvalho
de um pensamento desatinado
sorria! sorria!


sábado, 2 de outubro de 2010

trovoada

lá fora é aqui dentro;
Sísifo empurrando as montanhas.

.o equilíbrio do ator na ponta dos pés.

face maior do mundo que sobra
e uma outra parte na boca;
pedaço da maçã envenenada.


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

de

do verde- azul o papel revelado
carta em mil pedaços desdobrada
memória que o cheiro afaga
leitura que se faz sem palavras



terça-feira, 28 de setembro de 2010

primeiro beijo

a coisa da beleza acesa por dentro.

.olhares despudorados cortando a sala em diagonal.

algumas semanas depois
deitaram a pressa na calçada
fazendo companhia lado a lábio.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

os três anões do bosque II

Mamãe trancou-me aqui neste lugar. Disse a ela que por mim não haveria problema, nem remorsos, nem nada; que até preferia assim.

Pelo vidro quebrado da janela basculante observo equilibrando-me na ponta dos dedos dos pés as pessoas que passam pela margem do canal. Quando encontram os meus olhos sobressaltados, gritam apontando: a moça da boca de sapo! Quase sempre pego o primeiro desdentado próximo e arremesso contra a cara do inquisidor.

Já está tudo calmo hoje por aqui, porém ontem, alguns bufonideos no intuito de fugir da confusão da banheira, resolveram se alojar no assoalho do banheiro. Eram tantos, tantos brigando por um pedaço de infiltração que simplesmente fizeram tudo desabar, quebrando até o cano do chuveiro, foi um aguaceiro só. Eu e todos os outros ficamos cobertos de areola, teia de aranha e o chão inundado. Minha alergia atacou, expeli uns 20000 girinos enquanto espirrava. Tratei de dar um jeito na bagunça, arranquei uma mecha do meu cabelo e tapei o jorro d’água.


(continua)

Obs.: num futuro os fragmentos serão reorganizados (alguns até reelaborados) numa única postagem. Por enquanto vai saindo tudo assim, solto.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

os três anões do bosque

As palavras sumiram dos meus lábios, sempre quando tento falar, sapos pulam garganta a fora. Tirei uma resolução, de maneira que eu pudesse evitar com que o banheiro virasse um grande brejo, resolvi não mais emitir qualquer som através da boca. Há sapos por todos os cantos, dentro da privada são uns 10, na banheira uns 500, outros 30 dividem o chuveirinho do bidê... tamanhos variados, jogam suas línguas caçando mosquitos.

Maldito dia em que invejei minha irmã, maldito dia! Pensando bem... muito melhor estou eu, redimida de minha inveja e longe da mira da flecha cruel dos que a lançam em fúria. Convenhamos... Muito melhor estou eu cuspindo sapos, bem pior deve estar a minha irmã Florência – a dor na garganta toda vez que escarra moedas. Prefiro ficar só com o coaxar dos meus anfíbios do que rodeada daquele monte de gente puxando papo só para tirar uns mísero tostões dos seus soluços.

Há tantos desses bichinhos asquerosos sendo engendrados em minha barriga que impossibilitam os arranhos da fome em meu estômago.Venha eu sentir a contração do órgão vazio, o mais gordo deles que houver trato logo de colocar de volta para dentro.


(continua)


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

hoje

o riacho que desliza
vira queda d'água, cachoeira
no espaço que faz margem
entre o ontem e o amanhã
a beira.



sábado, 14 de novembro de 2009

para lá

tenho atravessado sinais abertos andando bem devagar pela faixa de pedestres, fingindo acreditar no acaso.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

sampa - rio

cheguei na hora errada
quando talvez poderia, poderia
um ombro pra chorar
um abraço apertado pra salvar da agonia

a chuva na janela
a resposta que não vem
prados verdes, volto agora
recosto minha cabeça com saudade
daquilo tudo que não fizemos depois



raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...