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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

iluminação


pela primeira vez olhou para o sol. caminhando, perdido, vagando sem um destino preciso. naquele momento, seu corpo entregue a uma silenciosa perturbação, contemplava o disco solar, e, como que diante de uma força superior, rogou por um milagre. num instante, que poderia ter sido uma eternidade, lembrou do alimento milagroso que o povo israelita recebera de javé enquanto peregrinava rumo a terra prometida. há dias em solidão e silêncio. há algumas horas em solidão e silêncio. 40 dias perdido - não existe noite pra quem caminha pelo deserto. sabia-se apenas ali, naquele momento, entregando-se a insolação, o corpo inerte na areia, olhos abertos em miração. pela primeira vez olhou para o sol e rogou por um milagre. o maná do deserto. “Eloi, Eloi lamá sabactani? Aceito a morte, se assim tiver que ser, mas pra ti que tudo é possível, imploro por um milagre! Genetheto to théléma sou.” contemplou a luz e o calor. por entre suas pernas surgiu um escorpião. via sem ver. sentiu o  toque do ferrão do animal peçonhento em seu corpo. uma tempestade de areia modificou o cenário. o homem deitado no chão do deserto. o corpo inerte, olhos abertos, vazios. anos se passaram. o homem, o homem, sua pele morta, os olhos vazados. a terra engolia em sucessivas ventanias, o corpo inerte, maculado pelo tempo. o couro curtido, a pele vazia. a areia do deserto.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vânia



Vânia, ainda sonolenta e entediada com a possibilidade da lâmpada estar queimada, acionou sem sucesso o interruptor para baixo e para cima algumas vezes. No intuito de tirar um proveito maior da luz difusa que invadia o espaço a partir do vidro empoeirado do basculante, num gesto ligeiro e preciso, escancarou a cortina do box.
Estava se sentindo exausta. Tentou recordar o que fizera no dia anterior... nenhuma lembrança vinha a sua mente. Forçou um pouco mais a memória... nem mesmo uma fina recordação a se esgueirar pelas paredes do esquecimento. Sabia-se somente ali, dentro do banheiro. Seus olhos nos olhos que se espelhavam, os cabelos desgrenhados, o gosto de ferrugem na boca, olheiras enormes e o susto: dentro de cada íris havia algo que parecia ser a imagem de uma mulher nua de pernas abertas sobre a relva. Esfregou o rosto com as mãos trêmulas e voltou a mirar-se. A imagem agora tomava uma parte maior do seu globo ocular.
Compenetrou-se na tentativa de entender o que estava acontecendo. Abriu o registro da pia, queria jogar um pouco d’água no rosto, acordar disso que parecia ser um pesadelo. A torneira liberou um suave olor de lavanda juntamente com um ruído alto e seco que fez com que Vânia levasse um susto, caindo próximo à porta. Aproveitou a posição para refazer cada passo até o momento em que se viu diante do espelho, dentro do banheiro.
“Banheiro!”. As palavras ainda cabiam na boca e Vânia podia pronunciá-las: “Banheiro! Espelho... Mulher! Mulher?” Inebriada com o forte cheiro de alfazema que tomava o pequeno banheiro, antes que jogasse no mundo novamente o mesmo substantivo, lembrou-se da figura que agora em seus olhos habitava, com os membros inferiores abertos e todo o verde cobrindo o chão. “Mulher.” Duas mulheres, uma mulher, a mesma mulher em cada olho. Apenas imaginava as formas e as cores, porém, não conseguia expressá-las, dizê-las, descrevê-las em palavras.
Ao se levantar buscou o apoio da maçaneta fazendo com que a porta abrisse, impelindo-a para a o que seria a área externa, deixando-a diante de um cenário ainda mais curioso. Sentiu uma leve brisa balançar os seus cabelos e o toque gelado beijar as suas bochechas. Havia um silêncio, um silêncio pesado, um silêncio primitivo, um silêncio original e absoluto. Ficou parada diante da floresta que se projetava por toda a extensão.
Ressoou em seu ouvido um zumbido. “Abelha”. Num primeiro impulso reagiu abanando, remexendo o ar, acreditando que poderia dessa forma afastar o inseto. A cada movimento das mãos o zunido aumentava, fazendo com que Vânia se preocupasse na mesma proporção. Juntou suas forças e se lançou em fuga entre a vegetação desconhecida. O som permanecia em seus ouvidos, ressoando dentro de sua cabeça.
Clamou por ajuda através de sons incompreensíveis, louca e desesperada em disparada rumo a qualquer lugar. De sua boca, agora, saiam apenas grunhidos. Não havia ninguém com quem pudesse estabelecer qualquer tipo de comunicação. Era ela, a mulher, perdida na floresta. O seu passado era o limite do instante anterior; o presente, a incerteza do futuro. Solitária e desvairada, desejosa de recordar algum traço de uma possível realidade. Sua vida presa em incompreensíveis sucessões de radicais acasos. Estatelou-se no chão, sentindo uma dor absurda em suas costas, rompendo a pele e surgindo próximo a sua cabeça um ramo de amora. Seu corpo se prendeu ao solo em fortes e visíveis raízes. Chorou em frutas doces que manchavam as folhas e o chão.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

em delírio - V

Deve ser assim quando tudo desaba. A poeira da areola, todo o resto da construção sobre nós. O ar rarefeito. Escombros, água e escuridão.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

em delírio - IV

A janela. Duas asas para o céu. Três estrelas. Não há vento, a noite parada, paralizada, pausada. Madrugada de abismo. Ele deitado na cama e os olhos atentos a qualquer risco de luz. Uma hora depois, o sentimento profundo, o raio rápido, fatal. Aquele instante infinito era o sentido do fio frágil da vida - devia dormir e guardar a lembrança, mas preferiu manter-se acordado contemplando eternamente o universo que parecia em expansão.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

em delírio - III

Tateava procurando o que nele havia e que também rijo no outro encontraria. Escuro, luz rasteira penetrando levemente sob a porta. Escuridão, os olhos cerrados evitando para si qualquer risco de revelação. Noite funda; tempo fechado, sem lua. Alertávamos a qualquer frêmito, escondíamos o rosto contra o travesseiro; dormíamos. Esse desejo que de mim a saudade faz busca e que naquele por tanto tempo fora saciado; hoje, mesmo não havendo qualquer contra-vontade, apenas coloca-se em lembrança.


domingo, 5 de setembro de 2010

ruínas do convento

Quando muda. Há pergunta? Silêncio de parede.
Um ruído de memória. Tantas vozes gritando para dentro e uma agudeza, um resmungo sem som do lado de fora - seria tão simples perguntar: tudo bem?
A parede do convento encerra o cheiro de antigos rituais e filtra o som que pulsa do outro lado. Infiltração. Quanto do que não digo há em mim quando de mim se reflete? É o som do sangue circulando pelas artérias.
O reboco perfeito de outrora era a infância, agora revela a estrutura precária que sustentara o prédio por tantos anos.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

em delírio - I

Eu. Eu. Eu. Ecoa. Esse eu ecoa. Tenho que chegar mais perto da parede. Essa imagem daqui de dentro: feijão bem temperado na frente da televisão, a casa velha, meu irmão se preparando para a escola. Eu vôo, é como se já tivesse experimentado essa possibilidade - é tão real! Ontem acordei pensando nisso e parece que de repente essa confusão ficou entendida, sonho. Não sei se foi ontem ou se foi hoje: uma igreja grande, uma catedral e aquele cheiro e silêncio de parede. Eu fiz alguma graça com a voz, um vocalize talvez, e ecoou. Entrei numa sala, uma capela e já não lembro mais. Hoje de manhã enquanto vinha para cá, deixei-me na poltrona do ônibus, ar seco, um calor não tão quente e o trânsito, o trânsito e pensei: isso daqui também é um pouco de mim, essa cidade, esse fracasso, esse fracasso de cidade.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

glória - 7

marcelo estava agachado preparando a ração do felino quando o seu celular vibrou, esticou a perna direita e retirou do bolso traseiro o aparelho móvel – não costumava receber ligações e esquecera o aparelho no modo silencioso. assustado e sem olhar o identificador, atendeu:
marcelo, sou eu, glória. estou aqui na fila da padaria. depois que já estava na rua percebi o quanto fui indelicada com a sua mãe, sei lá... sai assim de repente, logo quando ela chegou. fiquei com medo dela achar que eu não queria conversar, não sei...
menina, mamãe não comentou nada a respeito. eu queria era ter ficado mais tempo sozinho com você, gosto do nosso silêncio. – marcelo pode escutar a atendente da padaria chamando o próximo cliente.
depois te ligo, vamos combinar alguma coisa? beijo. – glória não esperou a resposta, apertou o botão vermelho do seu aparelho e guardou-o dentro do bolso lateral direito.

sábado, 24 de julho de 2010

glória - 6

o tilintar das chaves na porta de entrada interrompeu a conversa. noely adentrou a sala: marcelo meu filho, esqueci o ordinário da missa. glória, desculpa a correria. queria pegar pelo menos o evangelho, mas cheguei atrasada e voltei para casa. hoje ficarei sem missa.
mãe, a glória veio aqui tirar umas dúvidas com a senhora sobre pragas de samambaias.
na verdade, dona noely, eu não sei bem se são pragas... as folhas... as folhas estão com uns pontinhos marrons na parte inferior como se fossem manchas, sabe?! lembro de ter estudado isso na sexta série, mas fiquei preocupada...
não tem com que se preocupar. esses pontinhos marrons são soros; sua samambaia está se reproduzindo.
por mais inocentes que tenham sido as palavras de noely, glória escutou o diagnóstico como se fosse algum tipo de indireta. um tanto constrangida, deu um último gole em seu café colocando em seguida a xícara dentro da pia. despediu-se dos dois dizendo estar mais aliviada e feliz. foi até o cabide e pegou o seu acessório:ah! adorei matar a saudade de vocês, de tomar o café na cozinha. voltarei quando tiver mais tempo. combinei com mamãe que levaria os pães e até agora não apareci em casa e nem dei sinal de vida; no caminho ligarei do meu celular para ela. – enquanto falava, balançava o cachecol para clóvis que tentava agarrá-lo com as patas dianteiras.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

alice na toca do coelho

são agora... olha a hora! olha a hora! 16:54. o ônibus parado, não roda; já estou atrasado. nuvens pesadas lá no céu. vento, ventania, ventando. sacola de plástico voando. o coelho da alice passa correndo, dizendo que tem pressa. 18 horas. barquinho de papel na baia. a moça com o guarda-chuva ao contrário, segura a saia para não exibir a calcinha.




quinta-feira, 17 de setembro de 2009

delicate

a canção! há canção. um tununum em minha mente, tão linda... as lágrimas vão ao chão; sou fonte de água viva. o email não respondido. se fosse antigamente eu diria: a carta não correspondida. tununum. eu artista e eu nada. uma respota negativa e meu mundo desaba. por quem? por que? saltos mortais sobre plataformas sobrenaturais. a palavra era... a palavra é... a palavra... palavra. tununum, tununum. a porta bateu, a guitarra solou, o rockstar indie cantou o refrão. lá fora tudo escuro e silencioso, há canção apenas em minha cabeça, em replay, a mesma música repetindo até acabar a bateria do meu ipod. tu. nu. num. tu - ouvido esquerdo. nu - ouvido direito. num - os dois.





quarta-feira, 16 de setembro de 2009

alice na toca do coelho - #8

esse silêncio. esse silêncio. toda vez que falo, ela silencia, tranformando-me em nada. sua indiferença é a minha anulação.

esse outro é um abismo tão grande - não tenho medo e me jogo; ainda estou caindo. enquanto caio, canto. choro, rio - como sou infeliz.

talvez a felicidade não seja para hoje.

ela arfa, eu suspiro.




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

casa bonita

ainda estou aqui. a obra batucando em minha cabeça. tinha que ir, fiquei. fui. existe um compaço a seguir. martelo quebrando paredes para encaixar janelas. a casa do vizinho fica toda suja, empoeirada. por que que não avisou que faria reforma? acordei com o bate-estaca, derrubavam o meu lar, a força era tanta que tudo foi ao chão. tosse seca, alergia. sábado que vem, pode esperar, colocarei o amado batista para tocar durante todo o dia.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

condução

dormimos juntos no outro dia.

ele disse que foi bom me conhecer. repeti as mesmas palavras com um sorriso e dei um beijo em sua boca.

cheguei feliz em casa.

pedi desculpas pelo barulho, acarinhou meu rosto, fiz cafuné em seus cabelos. levantou e me ofereceu iogurte de mel com alguma outra coisa que não sei o quê; era delicioso.

tentei dormir, tinha que acordar cedo nesse mesmo dia - quando vou para cama de madrugada perco a noção do ontem, do hoje e do amanhã.

havia muita gente, muitos braços para o alto e solos de guitarra. no momento as palavras fugiram, fiquei ali parado escutando o eco, a mesma interrogação ad infinitum, 10 segundos.

nesse mesmo dia, à noite, nos encontramos.

esperou comigo o meu ônibus. demorou. peguei o primeiro que passou e segui para o centro da cidade para então pegar uma outra condução.

ele. ele. ele.

no dia seguinte nos falamos pelo telefone. assistimos um espetáculo. depois fui para casa dele.

galo cantando; despertador do celular. cômodo estranho, 3 segundos, não era a minha casa; o quarto dele.



sábado, 4 de julho de 2009

breathless #8 - in memorian do Zé

(Por não ter a capacidade de fazer uma homenagem mais bonita, por até hoje não assimilar o acontecido; uso as palavras da Joana Xênia.)


Dia estranho de não conseguir fazer dizer nada de olhar para um lado olhar para o outro e ter a certeza de que falta algo mas que de certa forma tudo parece impregnado por esse mesmo algo que falta que falta todos os livros na estante todos tantos quando foi mesmo que comecei a querê-los a amá-los não lembro bem dentro de um deles encontrei um calendário hoje é dia 4 de julho quatro de julho quatro de julho mas o que tem isso independência dos Estados Unidos mas e daí e daí não é isso não é isso que quero lembrar hoje dia quatro de julho exatamente hoje faz 7 anos que não ouço a sua voz embora ela permaneça na minha memória tenho boa memória mas hoje me deu medo medo dela sua voz se perder aqui dentro algum dia mas logo passo passou esse medo sua voz não vai se calar nunca aqui dentro da minha cabeça 7 anos 7 anos tanto tempo e lembro do seu sorriso daquela conversa aquela ultima conversa no ponto do ônibus aquele sorriso não vou esquecer e que venham mais 7 anos me desafiar com seus esquecimentos é estranho estranho eu lembrar das suas mãos lembrar do seu cheiro trago muito de você comigo todas as horas que até me assusto roubei seu jeito de pensar roubei outras coisas acho que foi o melhor jeito que encontrei para te manter vivo no mundo faz tempo tanto tempo hoje eu chorei de saudade uma saudade que não cabe nessa palavra saudade e quis te tocar te contar tantas coisas tantas coisas que você não viu e que eram para ser suas tanto quanto minhas tive saudade dos nossos filhos de papel das nossas brigas das nossas pazes dos nossos silêncios te imaginei entrando por essa porta sem entender nada me imaginei te contando tudo cada detalhe de tudo que aconteceu nesse tempo e você com aquele seu ar de quem no fundo sabe me perguntei como seria agora esse agora se tudo tivesse sido diferente que outros caminhos teríamos escolhido e dormi e sonhei com você vivo com seu tênis vermelho vivo me dizendo coisas que não direi a ninguém será segredo nosso mais um de tantos quando falo de você para alguém tento fazer um desenho de como você foi mas não sei não sei por mais que me esforce tenho a impressão que as pessoas que não te conheceram não entendem não entendem assim como eu gostaria mas enfim acho que quem me gosta mesmo sem saber gosta de você você que me mostrou o caminho para aprender a ser quero dizer obrigada e sei que você riria de mim mas digo mesmo assim e saberias o quero dizer com essa palavra de 8 letras hoje quis escrever-te isso quis aqui e assim sem me preocupar muito se sairia como um verso de pé quebrado queria te dizer que aqui aqui dentro de mim tem muito de você e ainda resta muito a dizer....



terça-feira, 23 de junho de 2009

glória - 5

como se tirassem canções de realejos, os dois mexiam as colheres em suas respectivas xícaras; adocicavam a bebida, glória provou um pouco. com a mão esquerda afastou os cabelos que tocavam os lábios: lembrei de uma coisa. sua avó uma vez me falou que a gente só se apaixona para valer uma única vez, aquela paixão mesmo, aquela coisa avassaladora... na época eu vivia grudada contigo e todo mundo achava que tínhamos alguma coisa; tínhamos mesmo, mas nunca falamos para ninguém, tampouco assumimos para nós mesmos. achávamos que era um segredo, mas todo mundo sabia. confesso que sempre rememoro aquela conversa com sua avó. quase todo dia ela vem a mim, principalmente quando estou de frente para o espelho penteando os cabelos, ela vem e repete tudo com as mesmas palavras. você foi o meu primeiro, tenho medo de que os outros tenham sido uma procura, uma vontade de te achar neles.
é, glória, nada melhor do que um café quentinho bem passado e forte para esquentar a memória. estou gostando de te ouvir. e, realmente, hoje você tá que tá. - marcelo, que estava de pé, pegou o banquinho que segurava a porta de serviço, posicionou ao lado de glória e sentou.




segunda-feira, 22 de junho de 2009

glória - 4

terminada a arrumação e recuperada da irritação alérgica, glória dirigiu-se à cozinha. observou cada detalhe do local: tudo igualzinho, entro aqui e me sinto a mesma de dez anos atrás. nenhuma mancha de gordura pelas paredes, os mesmos móveis e aparelhos... sua mãe sempre tão cuidadosa. engraçado. consigo me ver sentada naquele banquinho e você de pé abrindo a embalagem da goiabada. enquanto falo, escuto nossas risadas juvenis.
parece até que você não pinta por aqui há um bom tempo.
sim, parece. como estou, a maneira como percebo esse agora, parece mesmo. fui invadida por um saudosismo. tenho medo de que isso seja o murmúrio de alguma coisa.
glória, sem superstições. - marcelo posicionou as duas xícaras de porcelana sobre a pia, ao lado da cafeteira, juntamente com o açúcar e o adoçante.
o aparelho soltou um ruído; a água havia passado e se transformado. o cheiro de café adentrou as narinas dos dois jovens. olharam-se.


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Espelho

adaptação do conto de Machado de Assis

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Cenário:

Um auditório. Uma grande mesa com microfones. Câmera com transmissão ao vivo no Data Show. Notebook (ou dvd) conectado ao Data show para exibição do passado. Um espelho grande e quadrado.

Cena I

[ Surge uma figura grotesca, tem o rosto velado e em uma das mãos um espelho e em outra uma cesta com laranjas. Dirige-se ao púlpito entregando laranjas, é o palestrante (ator 2). Ator 1 acende o canteiro de incensos de laranja. Cantam baixinho. ]

Ator 2- [ Descascando a laranja ou brincando com a faca e a laranja. ]

Não admito réplica. Se me replicarem, vou dormir.

Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.

Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja [ parte a laranja ao meio. ] Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. É preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma... [ Espremendo dentro de um copo as partes da laranja. ] Muda de natureza e de estado. [ Toma o suco. ]

Cena II

[ Blackout. ]

2- [ Subindo na mesa. Tem em mãos uma lanterna. ]

Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Jacobina.

[ Ator 2, com o foco da lanterna, procura por Jacobina (Ator 1) que está no meio da platéia. ]

1 e 2- [Palavras soltas. ]

Provinviciano. Capitalista. Inteligente. Não sem instrução. Astuto. Cáustico.

2-

Era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca.

1-

A discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial.

[ As luzes são acendidas repentinamente. ]

Cena III

2-

Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. O alferes eliminou o homem.

1-

No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte.

2- [ Foca com a lanterna o Ator 1. Posiciona o espelho de mão no rosto.]

Adeus, sobrinho! adeus, alferes!

1-

pediu ao cunhado [foca com uma lanterna o espelho do Ator 2, que reflete a luz para o público. ] que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Mas o certo é que fiquei só [ eco. ], com os poucos escravos da casa. [ Apagam as lanternas. Ator 2 começa a recolher as laranjas. ] Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão.

2-

Na manhã seguinte

1-

achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. [ Som ampliado do Tic-tac do relógio. ] Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. [Ator 2 termina de recolher as laranjas. ] Corri a casa toda, a senzala, tudo; nenhum ente humano. [ Fim do tic-tac. ] Esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas.

2-

Mas a manhã

1-

passou sem vestígio dele;

2-

à tarde

1-

comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular.

2-

O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana.

1 e 2-

O sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa.

2-

[ Som ampliado do Tic-tac do relógio. ] E então de noite!

1-

Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma...

Dormindo, era outra coisa. [ Fim do tic-tac. ] O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra.

2-

Acho que posso explicar assim esse fenômeno:

Cena IV

[ Imagens do passado são exibidas no Data Show com a narração abaixo. Esta cena poderá ocorrer simultaneamente com a cena V. ]

Minha mãe ficou tão orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila houve alguns despeitados; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda, dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples...

[ A imagem é interrompida juntamente com a narração. O texto abaixo aparece projetado, ao mesmo tempo escutam-se palavras soltas. ]

Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara de uma fidalga. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais.

Palavras soltas:

Velho. Fineza. Mais. Ouro. Forças. Melhor. Espelho. Espelho. Mãe. Espelho. Muito.

Cena V

[ A imagem transmitida no Data Show volta a ser ao vivo. ]

2-

Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do seu ser novo e único.

1-

Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso.

2-

Desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. No fim de oito dias deu na veneta de olhar para o espelho.

[ Olha para a câmera sobre a televisão e recua.] Vou-me embora. [ Levanta o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olha para o vidro, murmura algumas palavras, tosse sem tosse, sacode a roupa com estrépito. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, olha para o espelho com uma persistência de desesperado, contempla a imagem. Veste a farda de alferes, levanta os olhos para o espelho. Ator 2 executa ações com uma parte da laranja e o espelho. ]

[ Ator 2 espalha as laranjas pela sala. ]

1 e 2 [ Narração em off. Jogo de espelho e câmera. ]

Tudo volta ao que era antes do sono. [ Ator 1 continua a se olhar no espelho, vai de um lado para outro, recua, gesticula, sorri. ] Um ente animado. Pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir... Era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.

[ Ator 1 e Ator 2 se olham, 10 segundos.]

domingo, 14 de setembro de 2008

Diálogos de abismo

Eu quero o infinito agora. Diante do abismo é tudo mais bonito. É distante, longe, é lá. Um sempre em lá constante maior. Posso escolher e escolho, sofrer. Felicidade também. É como fazer casas em regiões de furacões. O vento que bate forte é bonito, carrega tudo, levanta terra, raizes, ondas, qualquer coisa que estiver por perto. Mas eu não, fico, os dedos dos pés cravados na rocha, petrificando-me num piscar de olhos. Então eu vejo, do alto, de frente para o possível, passar o tempo. Nada me pertuba, nada me alcança; a natureza tudo pode.

sábado, 13 de setembro de 2008

Um dia de sol (cartas)

p/ E.F.Z.

Ontem me emocionei, assisti aquele cantor conterrâneo seu. Queria escutar o seu sotaque, lembrar dos nossos momentos. Mais uma vez chorei. Piano e voz, em alguns momentos guitarras (elétricas). Sai de casa e enfrentei fila para isso, ser um dia de lembrança. Fiz questão de te imaginar ao meu lado durante toda a apresentação, mas não te senti. Minhas lágrimas que seriam de felicidade, transbordaram em fracasso. Queria-te tanto, achava que você me queria também. Dei crédito aos seus suspiros. Sei que não mentiu, mas me incomoda pensar que seus pés andam tão no chão. Sei que acredita em minhas palavras, não é isso que quero. Seja o meu verbo!

raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...