Mostrando postagens com marcador outono - em prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador outono - em prosa. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de abril de 2011

Sonata ao Luar

Não há porque abrir a carta. Adianto: não há motivo algum para violar o envelope; nada ainda foi escrito, seu conteúdo permanece inexistente no papel que ainda receberá o desenho à lápis em letras finas e perfeitamente elaboradas; por enquanto permanece assim como escrevo. Fora emitida antes que as palavras fossem pensadas e tingissem a superfície lisa que permanece intacta das lágrimas que a enrugará com esperanças de um imediato retorno.

Através de um velho toca discos, a música arranhada bordando a Lua Minguante que se levanta por detrás da montanha. O papel em branco com as linhas vazias, presa numa das mãos dela que olha através da janela, enquanto as cortinas dançam na brisa leve de um pôr do sol de outono.

Ela permanecerá na moldura da casa - não comerá, não dormirá, não defecará e outros nãos -, de pé, permanecerá na moldura da casa. Como se adquirisse asas o papel voará para longe e ela permanecerá com os cotovelos apoiados na janela, uma das mãos aparando o queixo e a outra meio que caida para fora refletindo a brancura do papel que ali já não encontra mais clausura.

Suave tema principal: a exposição reverberando ad infinitum uma sonata para piano em dó sustenido menor alisando com as unhas um piano adornado por um vaso de flores, piano armário, sem a opulência de um piano de caldas - tão vaidoso quanto: sobressaindo um retrato em preto e branco sobre o qual descrevem-se dois sorrisos e as flores roxas do vaso que se apoia na deselegância do seu porte vertical. O teclado fechado, suas cordas numa tensão constante, o martelo parado.

A luz prateada e quase azul preenche a expressão do rosto da moça, tem a boca curvada para baixo e os cotovelos apoiados no quadro da casa.

As letras tomam os seus lugares dentro do envelope, anseiam um final feliz.



domingo, 21 de junho de 2009

glória - 3

mamãe não vai demorar muito, foi à missa; daqui a pouco estará de volta. me dê o cachecol! quer um café?
sim, se você me acompanhar; não quero incomodar.
marcelo pendurou o cachecol no cabide próximo a porta de entrada.
clóvis, que já estava perambulando pela sala, avistou o tecido fino e preto a balançar, preparou o ataque e saltou. o cabide foi ao chão, o felino fugiu saltitante, subindo os degraus da escada.
distraída, observando a pinturas florais penduradas pelas paredes, glória assustou-se; levando a mão direita ao seio esquerdo: marcelo!
esse, do portal da cozinha: o que foi?
o clóvis fez uma bagunça danada aqui. vou arrumar, pode continuar com o café. - glória agachou para pegar os agasalhos, chapéus e o seu acessório. deu 13 espirros seguidos.



sábado, 20 de junho de 2009

glória - 2

vou te dizer, não sei diferenciar um xale de um cachecol... - glória voltou-se em direção a voz e mirou a boca de marcelo que ainda estava a terminar a deixa: não entendo mesmo. mirou os olhos castanhos do rapaz e disse: eu, eu estava regando a minha samambaia quando vi uns pontinhos estranhos entre as folhas, deve ser praga, pensei, praga de samambaias. lembrei que sua mãe coleciona samambaias e vim aqui buscar uma solução, um conselho. ela saiu e acabei esquecendo de interrogá-la quanto a isso. ah! o cachecol. estava já na rua, perdida em tons pasteis, sentindo a revelação do outono, quando uma brisa fria soprou em minhas bochechas obrigando-me a retornar e pegar o cachecol.





sexta-feira, 19 de junho de 2009

glória - 1

calou. de olhos fechados, contou até três. voltou a caminhar. seu coração batia próximo aos ouvidos. não corria, caminhava calmamente.
tenho que falar!
tocou a campanhia. escutou uma voz fina perguntando quem era. após a resposta, o grito: marcelo, é a glória. uma senhora abriu a porta e autorizou a entrada, com um largo sorriso: estou de saida. ele já vem. fique a vontade.
sentada num sofá, glória ficou a esperar. depois de uns três segundos escutou pés pelos degraus. respirou fundo sentindo todo olor abafado daquela casa e espirrou, era alérgica a pelos. com o barulho, clóvis se espreguiçou, saltou da mesa de jantar e dirigiu-se a cozinha. no caminho, pode ser acariciado por marcelo que já estava atrás do sofá. glória, sentindo a presença do rapaz, esboçou um tímido sorriso.




terça-feira, 16 de junho de 2009

breathess #2

queria tanto saber fazer canção principalmente canção de amor mas não não sei nem sei cantar as que já cantam por mim então calo e ouço balbucio as palavras finais dos versos já existentes tomei água num copo de requeijão molhei a garganta hidratei as pregas vocais para nada para nada para nada para cantar somente as rimas a b a b como na maioria das baladas populares queria compor uma canção que coubesse na boca de todo mundo que desafinassem com o brilho dos olhos no momento do refrão tem que dizer amor pelo menos umas 10 vezes o menino vermelho de sorriso largo do outro lado no lado do lado de lá do palco que vejo quando o refletor exige a participação da plateia


breathless #1



quinta-feira, 21 de maio de 2009

planta e vaso

a plantinha que não dá flor. uma vara e verdes folhas quase duras. não precisa de água todo dia, nem toda semana. tem sido minha companheira sem saber; olho para a sua frugalidade e fico mais calmo. não necessita de cuidados. não resseca quando exposta por longos períodos ao sol se na varanda a esqueço, tampouco murcha quando empantanada de minha falta de sensibilidade ao regá-la. ela é minha sem precisar saber, sem precisar me entender. todo um desapego. hoje, agora, percebo que a amo. vejo o quanto de mim há em cada grão de poeira que escurece sua cor.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

hoje

ninguém nunca saberá. e eu tento engolir isso tudo, enfiar goela abaixo. calado. chorando quietinho, trancado no banheiro, com os olhos brilhando no espelho.



sábado, 2 de maio de 2009

em busca do tempo perdido

"Perguntava-me que horas poderiam ser; ouvia o silvo dos trens que, mais ou menos afastado, como um canto de pássaro na floresta, assinalando as distâncias, me informava sobre a extensão da campina deserta onde o viajante se apressa em direção à próxima parada: o caminho que ele segue vai lhe ficar gravado na lembrança pela excitação de conhecer novos lugares, praticar atos inusitados, pela conversação recente e as despedidas sob a lâmpada estranha que o seguem ainda no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso."

(
Em Busca do Tempo Perdido - no caminho de Swann / Proust).


quarta-feira, 15 de abril de 2009

curriculum vitae


foto: rafael rodriguez

Cheguei à beira do mar, olhei para o céu: avião. As ondas indo e vindo cavando buracos entre os meus dedos. O chão tingido de um vermelho-alaranjado, fim de tarde. Ao molhar os lábios, naquele movimento comum quando ansiamos falar algo, senti o gosto salobro. Procurei uma parte da areia ainda seca e sentei, pernas cruzadas e o espírito contemplando o horizonte.

É para amanhã, é para amanhã. Uma vida inteira resumida em alguns minutos, em algumas linhas. É para amanhã. Há anos satisfazia-me com o que era e o que conhecia, agora dimensiono o quanto que perdi e tento colocar o pensamento em dia. Sempre é tarde demais. Qualquer um falando de si ou do outro esboça narrativas em que cada palavra transforma-se num planeta, cada frase num sistema solar e por aí segue o rumo – e eu vou com minha nave que é um barquinho, em seu casco lê-se: promessa . Percorrerei rios de memórias, registrarei a pessoa que existiu e estará sendo a cada letra digitada. A página em branco, o ponto de partida.

Gosto de pensar em ser concha e vagar solitário na repetição das ondas. Construção e destruição.

Mar. Areia branca. Vento. Barcos de pesca. São os elementos que compõe a minha melancolia. Exercem em mim um jeito caiçara de estar no mundo. O peixe resignificado. Meu peixe.

Não sou quem sou agora, sou tudo o que fui e todos que passaram comigo. Corrijo, sou tudo o que fui e todo esse agora - que é uma sucessão de passados. Sou composto também de futuro, uma entidade inexistente, um jogo de projeções e acasos. O futuro é uma coisa que não é e que poderá vir a ser, imutavelmente descontrolado. Há quem cante que o futuro a deus pertence.

Chamam-me por um nome e desde pequeno acredito. A única certeza que tenho – até que as ciências provem o contrário – é que, assim como a todos os homens, constituo-me por possuir carne, osso e espírito – ou qualquer outra denominação para essa coisa que fala internamente.

Olhando as fotos antigas percebo o quanto de mim sempre existiu dentro de mim.

Cortar. Cortar.

Lembro do feijão diante da televisão, prato na mão e colher. Meu irmão se arrumando para a escola, minha mãe as pressas pois também tinha horário para chegar no trabalho. Meu pai na labuta o dia todo. Eu quietinho comendo o feijão bem temperado que mamãe sabia fazer - hoje já não é tão gostoso como antigamente, parece que falta alho e mais um pouquinho de sal. Mesmo assim, ainda aceito o feijão de minha mãe devido ao meu medo bobo de panela de pressão; ela traz sempre que possível (moro a duas horas e meia de distância da casa dos meus pais).

Quando pequeno trepava no muro, descascava o tijolo, esfarelava, juntava água e criava cogumelos ou ninhos de barro.

Cortar. Cortar.

Fiz uma viagem para uma outra cidade, de avião, não passou de meia hora. Lembro disso, é muito recente em minha memória e distante, bem distante, se levarmos em consideração o tempo cronológico. Foram três dias que mudaram a minha vida; revolução, tempestade interna. Ainda sinto o calor. O sol se pondo criando uma perspectiva entre dois prédios enormes. Natureza morta. Concretude. O Belo. E eu só.

Aparar as arestas da emoção.

Mesmo não acreditando muito, pedi força e coragem na virada do ano. Enfrentei a multidão, em meio a toda escuridão, deixei a água salgada e fria despertar alguma emoção. Os fogos explodindo e eu sozinho, perdido por querer, pedindo. Tenho muita força, mas sempre me faltou coragem. Olhando para os lados via pessoas felizes que brindavam na esperança de novos dias, semanas, meses. Eu estava feliz, mas era outra espécie de felicidade. Um se deixar e ficar, assim, se deixar e ficar. Não um se deixar ficar. Contemplar alegria às vezes é mais forte e sensível do que ser feliz.

Dançando ciranda, ganhei-perdi amigos e parentes (minha avó paterna e meu avô paterno); na verdade ganhei mais do que perdi. Aqueles que foram, moram dentro de mim e viverão para além cada vez que eu contar nossas histórias para os outros. Não me importo quanto ao existir ou não numa outra realidade, prefiro acreditar no real e possível do aqui e agora. Transcendência a partir da fala. Verbo, palavra. Invocação a nomes e situações, risadas e choros.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

.nocturna moth .

Ela está chegando. Sinto o cheiro do cigarro ordinário que costuma comprar. Toda vez que vem meu mundo desmorona e descumpro tudo que a mim mesma havia prometido; esqueço. Amanheço com ela entre os meus braços e em minha boca o gosto amargo de suas palavras doces; seu sexo.

Já escuto os seus passos pelo corredor, daqui a pouco tocará a campanhia. Não. Deixei de pegar de volta a cópia da chave. A minha primeira atitude tem que ser essa. Falta coragem para exigir que me deixe em paz. De louca já basta eu. Não posso escutar passivamente os seus lamentos, seus papos de amores frustrados ou sua revelação - ou seria revolução? - sexual tardia. Queria apenas poder abraçar e trocar carícias e dividir responsabilidades. Quando menos esperei, quanto mais avancei, deixei-me a caminhar solitária por sentimentos - falo baixo - amorosos. Em menos de um mês já estava com ela protegida pelas sombras das teias das aranhas; descobrindo cada canto da minha casa. Ela disse que aqui é o nosso ninho de amor e que talvez para mim as lembranças sejam mais fortes. Ninho de amor é cafona, quanto ao resto ela está certa.

É desesperador o cheiro do cigarro dela. Impregnou a sala, o banheiro, o quarto. É um olor abafado, mas que agora está forte - ela vem. Barulho de asas que cessam de bater e na porta do quarto o seu vulto. Ela acende a luz e diz que me admira."Incrível como tudo está da mesma forma, tudo no mesmo lugar desde quando fui embora." Para dentro de mim digo que nada foi mexido para que eu não perdesse a lembraça daquilo que havia entre nós - e continuo ainda mais para dentro - desde ontem, sabendo que hoje você voltaria.

Arrumei forças para um sorriso e perguntei se estava com fome. Sinceridade tem hora, poderia mentir e dizer que não. Fomos para a cozinha. Não conseguia olhar em seus olhos. Preparei uma limonada suiça. Ela tomou dois copos, eu fiquei sentindo o gosto do primeiro. Queria que sumisse da minha frente o quanto antes.

Bebi um copo d'água e me tranquei no banheiro. Estava perdendo a minha casa para uma estranha. Sim, uma estranha. Quem é essa outra aí que de repente me invade, diz me querer e balbucia muitas outras coisas em meus ouvidos? Nunca fomos amigas e não quero ter essa amizade. Quero sexo e amor e não amor sem sexo.

Destranco a porta enquanto escovo os dentes. Vejo uma mulher sentada na sala lendo um livro. Meus livros. Sua sombra. É agora. Enxáguo a boca, fecho o registro.

Digo: Você joga comigo sempre na defensiva e acaba revelando o que temo.

Ela tensiona os músculos da bochecha esquerda num "hã?".

Repito: Você joga comigo sempre na defensiva. De queixo para o alto, assoprando a fumaça. Acaba assim revelando exatamente o que temo. Segue o seu rumo. Vai embora! Hoje não tem cama, não tem carinho, não tem sexo, não tem nada. Não esqueça de deixar a chave sobre a mesa. Bata a porta quando passar e exploda. Acabou o que nunca existiu.

Depois grito e suplico que retorne. Ela bate as asas e entra pela janela. Preferia que não voltasse, que seguisse o rumo solitária e magoada comigo. Mas não. Estamos nós duas, uma de frente para a outra. Permitimos o beijo e lambemos nossas lágrimas. Apagando a luz, era assim que mamãe dizia que os insetos noturnos desapareciam.

De manhã, nós duas nuas e abraçadas. Meus olhos abertos - pena de borboleta; quando começa a estender sua beleza no mundo, morre.




quarta-feira, 25 de março de 2009

para o fim

copie e cole
------------------------------------------------------------------------------------

Re:Então tá certo.
Data: 23:57:20 20/03/2009
De: ****@email.com
Para: xxxxxx@email.com


Desculpa não ter atendido a sua ligação – tive que enfrentar uma fila enorme para pagar o aluguel e não levei o celular, ficou em casa carregando. Não sei como ainda não arrumei uma conta-corrente, poderia pagar pela internet; depois de hoje, na boa, fila nunca mais. Nem precisei de uma boa desculpa para chegar atrasado no trabalho.

Li o que me escreveu, respeito os seus sentimentos por mim. Acontece das coisas não serem como a gente acha que deveriam, não temos esse poder. Às vezes me culpo por ser assim tão objetivo. Confesso que para mim está sendo duro – imagina! Estivemos juntos durante esse tempo todo e de um dia para o outro a coisa acaba, tornamo-nos dois estranhos.

Concordo com tudo o que consta em seu email, mas digo: não me interessa a sua amizade. Não éramos amigos antes e se for para ser num depois, acontecerá naturalmente. “tempo, tempo, tempo, tempo”. Peço-te para não mais me procurar, para o seu bem e pelo meu. Tem um livro do Ovídio chamado “A Arte de Amar”; é muito interessante – quando puder leia.

Com certeza nos esbarraremos por aí e ficaremos sem saber o que fazer diante do outro; fingir que não viu ou dar um “oi” – sublimando nossas dores e raivas.

O que você queria comigo era próprio da sua idade – flor ainda a desabrochar para essa realidade toda... tudo muito abstrato. O que eu queria contigo era real, chão, responsabilidade. Por mais que negue, tem sim relação com a aceitação dos anos que passam – não se chega a minha idade sem ter acumulado experiências, não é fácil, são muitas cicatrizes; o brilho do olhar sendo apagado por noites sem dormir. Depois dos vinte e cinco não se deve sofrer tanto pelo fim de uma relação, uma semana e pronto; fica tudo na lembrança. Viva os seus dias e me deixe falando sozinho, um dia cantará neste mesmo coro-tempo.

Tem muita coisa sua espalhada por aqui, deixarei na portaria. Suplico que pegue na parte da tarde, quando estou no trabalho. Sentindo falta de algo me comunique por email. Não quero te ver, nem te ouvir – por favor, compreenda.

No mais, é isso, cinco dias sem você. Não vou dizer que já pintaram outras possibilidades; ficarei calminho curtindo um pouco a dor que dói para dentro.

Torço por você. Não. Depois de amanhã torcerei por você, por enquanto não, quero que se foda! Repito: uma semana e estarei bem.

Abraço forte.

PS: cuide-se, camisinha sempre.

---------- Mensagem Original ----------

Data: 17:32:11 20/03/2009
De: xxxxxx@email.com
Assunto: Então tá certo



domingo, 22 de março de 2009

início de outono

tentou guardar o sentimento debaixo da cama. à noite, a caixa de sapatos já esteva destampada sobre a colcha preparada para dormir e os olhos dela lacrimejando. há bons sentimentos e bons sentimos não bons. quando se deseja é melhor sentir do que nem conseguir sofrer por nada sentir. há risadas. há lágrimas. há sorrisos molhados e há pálpebras molhadas de dor. a canção repetiu durante horas, durante todo o fim de tarde. era simples, poderia apertar o stop. pronto, fim. não. deixou, acionou o repeat e deixou. estava sendo bom colocar para fora esse turbilhão, o não saber explicar. era uma dor que doía, mas que era necessária por algum motivo. não era autoflagelo, havia uma felicidade, uma saudade feliz nessa tristeza.



domingo, 15 de março de 2009

quase outono.

cai chuva lá fora cai. mamãe fez gelatina de morango. bom mesmo é café com leite e pão com manteiga, molhando o pão com manteiga no café com leite. amanhã sairei de casa e voltarei para casa. o asfalto molhado sou eu. bom mesmo também é vitamina de morango - digo, abacate. verde. cor verde. estou transitando do azul para o verdade, já cheguei nessa cor - mas a primeira ainda está presente. tenho que mudar isso. eu sei. eu sei quase tudo. numa determinada idade a gente começa a saber. já estou sabendo. muitos esquecem. guardo tudo. e o domingo. e o outono. quando chove, chove. quando não, não. mas chove. hoje choveu. eles tem uma canção assim... trim-trim-trim, o telefone. calma aí. alô? alô! eu. hahahahaha. tá bom. beijo. eu estava dizendo... agora vou ter que lembrar. aquela canção,menino. ah! deixa pra lá. sou eu falando comigo.




segunda-feira, 30 de abril de 2007

FUBÁ SEM LEITE

acordei com fome e talvez fique assim uma boa parte do dia. não porque quero; simplesmente por nada ter na geladeira. na verdade tenho sim, poucas, mas alguma coisa. podia fazer um fubá, mas se o fizesse ficaria sem o leite e sem o leite não teria nada mais para misturar ao café, e café sem leite não conseguiria tomar.
____________________________________________________________________________________
não sairei de casa; não quero sorrir, na verdade nem posso sorrir, não posso ficar por aí desperdiçando o pouco de energia que me resta. tenho que parar de pensar nisso tudo, pois também é uma forma de gastar... não pensar. não tenho sono para voltar a deitar, e dizem que fome dá sono... estou apático, não com sono. melhor encostar novamente a cabeça no travesseiro. talvez melhor morrer. mas não é o que quero! desejo neste momento apenas não fazer nada ou nada fazer, não gastar energia. não, nada, mais.
____________________________________________________________________________________

mais uma vez levanto para ir ao banheiro, não entendo, nem tomo tanta água assim, daqui a pouco cai pedra. do banheiro posso escutar todo o prédio, a essa hora a criança que mora lá para cima já deve estar no recreio em sua escola. um rádio toca louvores ao senhor acompanhado por barulhos de panelas e um cheiro forte de alho refogado, lá em casa mamãe fazia umas comidas tão bem temperadas... fiz meu xixi sentado, com a cabeça escorada em meus braços que ficaram apoiados em minhas pernas e voltei para cama.
____________________________________________________________________________________
moro num conjugado no bairro do catete, é só cama num pequeno espaço, uma pequena-minúscula cozinha e um banheirinho, tem um janela que dá para o respiradouro do prédio, vez em quando aparece um gato por ali que fica me encarando ou então encostado no vidro da minha janela, moro no primeiro andar, embaixo fica a portaria. é primeiro andar quase segundo mas é primeiro.
____________________________________________________________________________________

fui puxar a respiração e veio uma meleca enorme tocar minha garganta, que nojo! deve ter proteínas. minhas articulações doem, tudo em mim dói, meu cérebro pesa sobre minha cabeça, digo, dentro de minha cabeça. encosto minha testa na parede branca e arrasto de um lado para o outro para ver se alivio a dor. tudo treme. mas a dor não vai embora. minha dor continua a pulsar dentro do meu crânio. e essa fome que não passa, nunca passará, passará sim se for saciada. mas não tenho dinheiro para me alimentar, na verdade até tenho mas se usar não poderei ir a faculdade amanhã.
____________________________________________________________________________________

melhor fazer fubá sem leite. no café pingo umas gotas do leite. mas também se não tomar o leite poderá estragar e estragando aí sim que não tomarei mesmo o leite.

domingo, 29 de abril de 2007

Pela Avenida Passos

Sou uma das meninas da avenida Passos, trabalho próximo à praça Tiradentes. Tem muitos teatros por ali; bastante artista, né?!

Desculpa, não me apresentei: Meu nome é Amanda, posso reservar-me a não citar meu sobrenome? É que meus pais não sabem o que revelarei aqui.

Quando disse que trabalhava, não é bem um trabalho; dependendo do cliente até gosto. Fico na parte da tarde, logo após o almoço, em frente ao hotel P*, todos que passam por ali sabem o que faço e a curiosidade obriga-os a me olhar. Passa senhor, passa senhora, criança, adolescente cheirando a sexo (esses não são os que pagam bem, coroa é que dá uma grana legal; eles se apaixonam e no acreditar que podem nos tirar dessa vida nos tratam como amantes).

Não largo esse bico tão cedo, me filiei a um sindicato aí, estamos com um projeto para regulamentar a nossa profissão; chega uma idade que de tanto dar, nossa boceta fica abertinha – imagina então o cú... Tá rindo, né?! É porque a xereca não é tua, mas a culpa não é do cliente e se optei por viver assim tenho que assumir as conseqüências quanto a dor eu alivio com pomada – é só deixar o cara da farmácia me enrabar, já economizo...

Tenho que desmentir algo que falei antes, na verdade meus pais sabem da minha vida, descobriram quando eu novinha matei o colégio e fui fazer programa. Fui flagrada numa batida policial com um padre gordo. E tem mais, enquanto os outros policiais invadiam os outros quartos do motel, um dos agentes que ficou me vigiando, me puxou para o banheiro e meteu o cacete em mim. Era bonitinho, novinho, pau grande, estava quase me apaixonando, quem sabe até deixaria de ser puta... Após ele ter gozado em todo o meu rabo, fui beijá-lo, quando ele então enfiou a porrada na minha cara, mandando que eu não dirigisse meu olhar para ele e que para encostar em seus lábios eu deveria antes passar creolina nos meus. Depois desse eu tive certeza do que gostaria para o meu futuro, já tava marcada, batizada pelo capeta. Do motel fui levada toda suja e descabelada para a escola onde meu pai foi me buscar. Papai me viu, levei outra porrada, gritou que eu não era digna de ser sua filha e que não me receberia mais em casa e que era o mesmo pensamento de minha mãe. Fui expulsa do colégio e no mesmo dia já não tinha pai e mãe.

Ah...! Cliente tem de tudo, como falei; tem doutor, adolescente, coroa falido – esses me dão pena, tem uns que pedem fiado, fiado no meu cú não! Meter e não pagar é sacanagem! – Quase me esqueço dos velhinhos, esses são um tanto desgastantes, a gente tem que ficar enrolando, ralando a bunda na cara do indivíduo, rebolando até o boneco ficar duro para então colocar a camisa de força e em seguida enfiar o bichinho na boceta.Aqui nós usamos camisinha há bastante tempo; puta que é puta se cuida, caso contrário não tem trabalho e depois vai morrer na miséria e ainda sujar todas da área, sujar no sentido de difamar porque eu sei como se pega o HIV e essas outras DSTs.

Estava na vida há pouco tempo, quando me vi sozinha, sem ninguém para me apoiar, vim direto para onde poderiam me acolher, esse mesmo hotel que lhe falei, aqui. Tenho somente dez anos na vida, já aprendi mais coisas do que na época em que estudava; dos meus seis anos aos quatorze só aprendi a dizer sim professora, sim papai, sim mamãe, ajoelhar e agradecer a Deus tudo que acreditavam que Ele havia me feito de bom – desde os meus quinze anos, nessa mesma posição faço muita coisa que eu gosto e ainda tiro uns trocados.

Não sou mais aquela menininha que obedecia a Deus, entretanto deixo sempre um dinheiro para o meu santo. Todo dia vinte de janeiro vou eu de vermelho para a catedral metropolitana. Tenho que agradecer ao meu São Sebastião por tudo que me tem dado e por me manter viva até hoje. Aquelas senhoras não imaginam o que faço, fico olhando para a cara de cada uma, tentando adivinhar o rosto do marido que já pagou para mim.

raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...