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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sobre as feras que habitam qualquer lugar

Há uma pintura na parede do meu quarto cujo autor desconheço e a possibilidade de sabê-lo embaçaria toda a contemplação, todo o espaço para além de mim o qual me mantém totalmente ligado a essa obra. É uma paisagem não muito bem definida: parece um mar em revolta onde projeto um barco numa mancha, perdido entre vagas, na iminência de ser derrotado pelas águas revoltas - o fato de estar ali parado, quase como uma fotografia que capta um instante o qual me parece por demais forte para também fazer com que eu acredite na força do marinheiro girando a nau alucinadamente, tentando salvar-se a si mesmo e a todo o seu corpo que é o próprio barco.
O homem a guiar é o barco sendo guiado, ambos uma extensão sem meio, começo ou fim; cada madeira, cada unha, prego, pelo ou parafuso.
A história lida a partir da imagem pregada em minha parede remete a tantos sonhos, a tantas noites mal dormidas, quando passeava perdido na beirada da colina em calorentas noites solitárias, tentando calar-me, evitando o diálogo com a solidão. Às vezes é preciso estar só, totalmente só.
Algemar a imaginação, essa voz que cisma de tagarelar cá dentro, em qualquer tronco, toco ou pedra e lançar fundo ao afogamento do silêncio absoluto.
Tem uma voz que parece não ressoar dentro de mim, mas que é minha, reconheço minha, a qual tenta a todo custo estabelecer um contato profundo com o universo - leão cuja força forja sua própria jaula de ferro forte, mantendo-se em exibição aos curiosos, provando assim o quão fraco sou ou soa dentro de mim a energia necessária para a revolução do mundo.
A pintura simples, exata em sua forma simples, profunda e complexa como um deus, como a escrita mal escrita e manchada - necessária e tardia.



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

os três anões do bosque II

Mamãe trancou-me aqui neste lugar. Disse a ela que por mim não haveria problema, nem remorsos, nem nada; que até preferia assim.

Pelo vidro quebrado da janela basculante observo equilibrando-me na ponta dos dedos dos pés as pessoas que passam pela margem do canal. Quando encontram os meus olhos sobressaltados, gritam apontando: a moça da boca de sapo! Quase sempre pego o primeiro desdentado próximo e arremesso contra a cara do inquisidor.

Já está tudo calmo hoje por aqui, porém ontem, alguns bufonideos no intuito de fugir da confusão da banheira, resolveram se alojar no assoalho do banheiro. Eram tantos, tantos brigando por um pedaço de infiltração que simplesmente fizeram tudo desabar, quebrando até o cano do chuveiro, foi um aguaceiro só. Eu e todos os outros ficamos cobertos de areola, teia de aranha e o chão inundado. Minha alergia atacou, expeli uns 20000 girinos enquanto espirrava. Tratei de dar um jeito na bagunça, arranquei uma mecha do meu cabelo e tapei o jorro d’água.


(continua)

Obs.: num futuro os fragmentos serão reorganizados (alguns até reelaborados) numa única postagem. Por enquanto vai saindo tudo assim, solto.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

os três anões do bosque

As palavras sumiram dos meus lábios, sempre quando tento falar, sapos pulam garganta a fora. Tirei uma resolução, de maneira que eu pudesse evitar com que o banheiro virasse um grande brejo, resolvi não mais emitir qualquer som através da boca. Há sapos por todos os cantos, dentro da privada são uns 10, na banheira uns 500, outros 30 dividem o chuveirinho do bidê... tamanhos variados, jogam suas línguas caçando mosquitos.

Maldito dia em que invejei minha irmã, maldito dia! Pensando bem... muito melhor estou eu, redimida de minha inveja e longe da mira da flecha cruel dos que a lançam em fúria. Convenhamos... Muito melhor estou eu cuspindo sapos, bem pior deve estar a minha irmã Florência – a dor na garganta toda vez que escarra moedas. Prefiro ficar só com o coaxar dos meus anfíbios do que rodeada daquele monte de gente puxando papo só para tirar uns mísero tostões dos seus soluços.

Há tantos desses bichinhos asquerosos sendo engendrados em minha barriga que impossibilitam os arranhos da fome em meu estômago.Venha eu sentir a contração do órgão vazio, o mais gordo deles que houver trato logo de colocar de volta para dentro.


(continua)


sábado, 24 de outubro de 2009

luva de boxe

estava tentando sair sem ser incomodado, quando a síndica me chamou:
--- você escutou alguma coisa durante a madrugada?

não sabia o que ela queria ouvir, fiquei por um breve tempo sem resposta, pensando no que responder. disse que não, apenas o barulho do piso de metal utiliado pela empresa de gás para tapar os buracos que realizam no asfalto.
--- até parece tiro. - ressaltei sorrindo.

foi então que ela me revelou que o prédio havia sido assaltado às 3:30 da manhã:
--- fizeram a limpa no 306. foi logo depois que o casal foi para a cama, parece que o marido ronca muito alto, por isso que não escutaram e nem viram nada. a menina só foi perceber que tinha acontecido alguma coisa quando estava saindo para o trabalho, foi pegar o notebook e o celular, não encontrou os objetos. ligou para a polícia na hora, eles vieram aqui, fizeram várias perguntas e disseram que voltariam para realizar a perícia. acharam uma luva de boxe...

--- deve ser para quebrar o vidro da janela. - interrompi.

--- ficamos sabendo agora há pouco que a academia aqui do lado também foi assaltada.

esbocei uma conclusão:
--- quer dizer então que o ladrão entrou pela frente, pela academia...

--- sim. da academia ele subiu no terraço daqui, arrombou a porta e entrou no 306. provavelmente a porta não estava trancada. tenho até que pedir para o meu marido mandar vir alguém para consertar a minha porta, imagina se esse bandido vem para o segundo andar! 

peguei meu celular novo para verificar a hora, já estava atrasado. pedi licença, tinha que ir. ao passar pela portaria esbarrei num policial que segurava uma maleta prateada, "deve ser para tirar as impressões digitais" falei pra dentro. ele me olhou, nos observamos por uns 5 segundos, desviei a atenção para guardar a chave na mochila, nos encaramos mais uma vez; senti o quanto que a minha bolsa estava pesada.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo no cinema - como desenhar círculos perfeitos

quem espera alguém não se oculta num canto qualquer do café.

uma pena não fumar, poderia ir lá pra fora fazer hora.

mas não... compro uma fatia de bolo e um expresso só pra ter o que fazer. e quando acabar?

ainda faltam duas horas para começar o filme.

como o último pedaço do bolo de chocolate e dou a última golada na bebida; vejo o fundo branco manchado da xícara.

olho o horário da sessão no bilhete, depois procuro alguma coisa olhando através da porta de vidro, pego o celular e finjo ter recebido uma mensagem. ensaio um sorriso. guardo o aparelho no bolso lateral direito da calça jeans.

a ideia era ficar só, mas acabo me sentindo acompanhando entre tantos, compartilhando uma espécie de solidão coletiva. todos exercendo o desengajamento emocional através do ritual tecnológico contemporâneo... nem sei exatamente o que isso quer dizer - li num livro antes de chegar aqui. mas as ações são muito parecidas, uma dança muda, um teatro mudo,uma história sobre isolamentos isolados. desinsolação. não há tristeza, não há melancolia, nem alegria... é um ponto final, uma mente vazia sem misticismos.

deix'eu chover.




segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ponto de ônibus

a senhora não olha pro lado e pro outro não, olhe pra frente - pra Deus! pra Deus! Jesus andou descalço pedindo dinheiro e comida e a senhora nem olha nos meus olhos.




sábado, 26 de setembro de 2009

saida rápida

faz um barulho danado naquela esquina onde os aposentados penduram suas gaiolas entre as árvores em frente ao bar; tomam a cerveja de sexta-feira enquanto os pássaros gritam contra o calor do meio dia.

não falar mais comigo, caminhar, caminhar e não escutar a minha própria voz que diz gracejos ao pé do ouvido.

tem helicópteros no céu. dois. sirenes de ambulância e corpo de bombeiros. algo acontece ou aconteceu.

depositar o dinheiro no banco, passar na papelaria e comprar uns bloquinhos para rascunhos; voltar correndo para terminar as leituras.

as pessoas interrompem os passos e olham para o alto, para uma das janelas por onde escapa uma fumaça negra.

lembro: o cigarro! o cigarro!




quinta-feira, 24 de setembro de 2009

uma carta para o pequeno príncipe

a flor murchou, quase morrendo. já molhei a terra, a única coisa que posso ou sei fazer para ajudá-la. não fala, não grita, não sinalizou socorro. eu passava todo dia pelo vaso e ela estava lá toda verde.

andava cuidando de mim e acreditei segurança em você, ou nem pensei nada - estava apenas cuidando de mim mesmo.

olha o erasmo cantando!

não me enlouqueça ou projete suas loucuras em mim, já tenho tantas. sou o mesmo, mas os fios brancos começam a pintar os meus cabelos, cada vez que me olho no espelho aparecem outros.

veja: olá! .rs. é um olá com sorriso, dizendo que realmente está tudo bem e querendo te deixar tranquilo para falar o que quiser. e outra, tenho riso frouxo, isso transparece até quando escrevo nesses aplicativos para conversas virtuais. o que você quer ouvir de mim? se quiser eu falo. fala que eu te escuto. pergunte - fica mais fácil responder do que começar a falar de mim assim, do nada.

tenho usado outros perfumes. ganhei dois perfumes no final do ano passado, um francês (que não sei o nome, nem sei se é orginal - mas é bem gostoso) e um outro nacional. essas essências presentificam os ausentes. lembro do seu cheiro, ótimas lembranças. você não reconhece o seu olor porque usa sempre o mesmo perfurme.

tem um cara falando em espanhol na tv, fala de terapias convencionais e não sei o quê.

olho para o lado e vejo a plantinha que passou do verde para o marrom. não há mais nada a fazer. nem sei mais se quero ter plantas em minha residência. essa foi a primeira e durou até hoje, várias passaram por aqui, essa ficou e agora parece que chegou a hora de partir. dizem que as plantas somatizam os males da casa; penso: antes ela do que eu. significa que tenho que arrumar uma outra, não quero problemas pra cima de mim.

na verdade, desconfio que os fios brancos sejam fios descoloridos; tenho usado um gel para espinhas. mas a idade chegou mesmo, disso não tenho dúvidas; o joelho esquerdo anda doendo.

todo possível começo nos abala, nos desterritorializa, ficamos sem cais. esquecemos de todas as nossas experiências e caimos num abismo, despecamos como a Alice na toca do coelho. estou sendo um pouquinho sentimental. você pediu para falar e estou eu aqui falando. se quiser podemos encaminhar melhor o papo. estou me justificando, você disse que não acreditou em mim na segunda vez que tentamos namorar. estou aqui dizendo que você nunca conseguirá entrar na minha cabeça, adivinhar meus pensamentos, o melhor é confiar e viver o momento. talvez eu tenha te assustado fingindo-me seguro quando na verdade estava com medo do que poderia acontecer e que acabou acontecendo.

as canções que mando para os meus amantes não são declarações de amor, são declarações de vida. foi somente para você que escrevi algumas cartas de amor, fiz alguns presentes. o que você fez com os meus desenhos? na época, o que me fez sumir de você foi outra coisa. vai me dizer que jogou fora os meus desenhos?

só para lembrar:
"fiquei na chuva tentando falar contigo, te procurando e nada"
meus amigos salvaram minha noite, sai com eles; salvaram-me de uma possível gripe. salvaram-me de você. acho que na mesma madruga te mandei um email e você me respondeu que teve que ir ao cinema com uns contatos. mandei uma última mensagem virtual e fiz disso um fim. não guardei mágoa alguma. as relações são assim mesmo, acontece de ser assim algumas vezes.

agora estou só. antes era eu e a plantinha. agora estou só.

cansei da síndrome de Geni, vou fugir no zeppelin!


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planta e vaso



domingo, 16 de novembro de 2008

15%

Confessou a paixão e deixou claro que não era abismo de consciência. Levou a mão ao toque, o outro permitiu e sorriu meio sem graça. Chamou para o ouvido: "desculpa toda essa brincadeira. É sério! Diga, você já teve alguma relação assim?" Como resposta obteve um "sim, por curiosidade, com amigos, umas três vezes". O interessado, surpreso, quis se aprofundar no assunto. "Não, apenas beijo" - respondeu o interrogado. Voltaram a papear com o restante do grupo. Muitas gargalhadas, brincadeiras e olhares. O que estava afim pensava para dentro, mais para dentro do próprio pensamento. Começava a amanhecer. Havia o medo de que o Sol revelasse qualquer traço que desmentisse o que criara para si sobre aquele.



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Da janela

Mirava a palmeira balançando à altura da janela. O tempo virara desde cedo e começava agora uma ventania cinza que cantava através das frestas do apartamento. Contemplava a dança desesperada e via beleza nisso, a qualquer momento a àrvore poderia despencar e quebrar tudo ou qualquer um. A natureza a fez magra e flexível de maneira que chegasse a tal amplitude. Parecia uma mulher nua e louca gritando por liberdade, ao mesmo tempo murmurando baixo os seus sofrimentos. Era ela.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

pipipi-pápápá

a pimenta há pouco mordida ainda arde na boca. a goteira da pia não pára de pingar. e depois tudo novamente e novamente e novamente. se abrir a boca sairá fogo como um dragão, gosto de dragões, gostaria que eles existissem - pena que não, até que provem o contrário. se eu disser, como um dragão é como se quisesse dizer que como drações, há graça nisso. dizer tudo que já foi dito e repetir sempre isso, é complicado, fica difícil manter a paciência no lugar. tentarei. e coninua o pinga-pinga. a língua se permite a ruminar o calor. puxar o ar. AR. é, é tão pouco. comer maça é bom para o bafo de cebola. mas não é cebola, é pimenta. deve servir também, tentou? tentarei.

continua, não sei quando.

sábado, 25 de outubro de 2008

Árvore Florida

recontando um conto indiano

Diz que havia duas irmãs muito pobres, um dia a mais velha teve uma idéia (leu em algum livro de feitiçaria ou algo do gênero). Explicou para a irmã mais nova o passo-a-passo, informou que era necessário tomar muito cuidado e seguir tudo direitinho sem alterar a ordem dos procedimentos; não precisava ter medo. Explicado tudo, foram até o quintal, onde a mais velha jogou um balde de água sobre a mais nova. De repente a pequena se transformou numa bela árvore que aos poucos fazia brotar lindas flores, mais bonitas do que aquelas que só desabrocham na primavera, algo nunca antes visto.

“Tá caindo fulô eô
Tá caindo fulo...
Lá no céu, cá na terra...
Tá caindao fulô”

Com muito cuidado, sem quebrar nenhum pedacinho dos ramos, colheu as flores e colocou em um balaio. Acabado todo esse processo, jogou água novamente sobre a mais nova, esta voltou a ser menina.

Seguiram para a rua do Mercado, colocando logo em exposição suas flores. As pessoas que passavam não acreditavam e ficavam abismadas com aquelas flores tão bonitas. E assim, dias após dia, iam guardando o dinheiro...

Um dia, um rapaz encantado com a beleza daquelas flores, resolveu comprar todo o balaio, estava fora de si, o cheiro, as cores das flores o consumiam por dentro... Ao perguntar para as meninas quem era o fornecedor daqueles produtos não obteve resposta, seguiu as vendedoras para descobrir aonde moravam. No dia seguinte pela manhã, ficou na vigília para ver o processo de colhimento. Acabou presenciando a transformação da pequena em árvore. Ficou, então, totalmente apaixonado.

Pela tarde voltou a rua do Mercado e comprou novamente o balaio todo, aquelas flores seriam dele, somente dele. Pediu a mão da mais nova em casamento. Para sua felicidade não houve nenhuma resistência quanto ao seu pedido.

Na noite de núpcias, falou para sua esposa que sabia de toda a magia, não falaria a ninguém, mas que pela última vez e somente para ele, que ela se transformasse. A noiva, assustada, negou o pedido, mas não conseguiu convencê-lo do contrário, acabou sucumbindo ao pedido, no entanto, deixou bem claro quanto todo o processo, todo o cuidado necessário, pois um passo não seguido acarretaria em algum desastre. Ele, afoito, disse que sim com a cabeça. Pegou um balde com água e derramou sobre a noiva.

Alucinado, se jogou sobre a árvore e arrancou cada uma das flores, depois de muito tempo lembrou de que deveria desfazer o feitiço. Assim que a água passou pelas raízes, pulou de susto, não conseguiu conter seu desespero, sua noiva estava sem pés, braços, olhos, ouvidos e boca.

Não sabendo o que fazer, correu para fora da casa, correu, correu, parou ao verificar que estava perdido próximo a uma cachoeira com uma gruta, onde entrou e ficou lá... Anos se passaram, sua barba já se arrastava pelo chão tocando as pedras úmidas da cachoeira, seus cabelos brancos se confundiam com a barba. Refletiu e chegou a conclusão de que estava na hora de retornar, saber o que aconteceu depois desses anos todos, se a magia havia passado...

Ao chegar em sua antiga casa não havia mais nada da suntuosidade de outrora, partiu para casa da irmã de sua noiva, perguntou por ela, estava a mesma, sem os membros, ouvidos e boca. A irmã mais velha o aconselhou a jogar novamente um balde de água por sobre a outra e que dessa vez ele juntasse cada parte da árvore em seu devido lugar, colar todas as partes em seus devidos lugares, amarrar os galhos quebrados, colar as folhas... Foi o que fez.

Quando terminou pode ver o belo trabalho que foi feito, era uma nova árvore. Jogou novamente o balde com água e viu a transformação, lágrimas escorriam pelos seus olhos fatigados, maltratados por tantos anos de reclusão em uma gruta escura. A irmã mais nova retornou da magia mais linda do que antes, de uma beleza inigualável.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

flor de pitanga

diga tudo o que quero-mas não quero saber. diga! dia alto vem, céu aberto, chuva longe. o livro da biblioteca está atrasado, quando devolver não sei, a leitura ainda está pela metade ou menos que isso, coisa qualquer. Foi você que quis voltar, agora toda a noite bate a saudade e não tenho a menor idéia por quais locais te procurar. subo e desço escadas, me escondo entre os gestos das árvores daquela rua principal que normalmente apenas passo de ônibus. mar de mim, muito mais de mim e que os outros se percam por aí. quero colo. cabeça a tira colo. escutar a própria voz vinda de outra boca. minha língua míngua - tem um a aí atr s, aqui também. fui e vi. voltei. deixei acontecer e o tempo foi. tal, tal, tal. blá, blá, blá. se você pensar que é para você, saiba que é para um certo alguém; tantos. tá queimando um cheirinho para vitalidade, prazer e afeição.

domingo, 19 de outubro de 2008

cumulonimbus

Nem sempre nuvem carregada é para o mesmo dia. Promete, promete mas a água não cai. Às vezes é para o dia seguinte ou para o amanhã seguinte do seguinte. O ator desse filme é muito gato, ele mia, miau-miau... risos... nada a ver. Agora é sério! Não é questão disso ou daquilo, é fato. Por mais que se tente, fica difícil medir o tempo com precisão e por mais que se queira não mandamos em tudo isso que é por si. Apenas se olha para o céu e se diz ou se pensa: Vai chover! - ou: Mas por que cargas d'água não se derrama essa lágrima? - Apenas há a pergunta e a espera, uma resposta independente do desejo de quem deseja um retorno. Dizem que água não tem cheiro, não tem cor, não tem mais alguma outra coisa que já esqueci. Mas digo, mentira! Dependendo da fonte, seja o céu, a rocha, o mar, a lágrima, haverá algo a ser deixado na língua, gosto; sentido pelas narinas, !óbvio!, cheiro - se tem gosto tem cheiro; quanto a cor nem falo nada.

sábado, 18 de outubro de 2008

.ao acordar.

Dizer sem bloquear a passagem de ar. Impossível! Desabafar bocejando. A Chuva caiu na madrugada, os corpos largados na cama sentem o frescor após dias de calor. Ele escreve bem, eu gosto de ler. Acho engraçado ele achar que pode se esconder. Tink, tink. Pák, pák. Ti, ti, ti. Xiiiiiiii. Águas de primavera abrindo o verão. Ele acaricia o rosto do outro, vê o quanto dele não há e sorri. Quem recebeu a delicadeza abre os olhos e flagra um sorriso doce, levanta um pouco a cabeça e com o olhar pede um beijo na boca. A chuva agora é um chuvisco quase fim. Um feixe de luz ressalta o Rilke caído no chão. Os dois já estão abraçados, as mãos tesas se tocam. Um fica de costas e se permite ao outro. O tempo agora não é o mesmo, a cigarra anuncia o sol e o calor do longo dia.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Fazendo sala

Marido – 1
Esposa – 2
Visitantes – V1 e V2.


Noite - Interior
Uma sala com mesa de jantar

1 e 2 dão os úlltimos retoques na arrumação da sala.

Campainha.

- Ih! Chegaram.

Respiram fundo e abrem a porta, do estresse passam para uma calma simulada - no tempo de abertura da porta.

1- Oi! E aí?! Pensei que não viriam mais...

V1- Pois é, a gente se enrolou, mas, ó, estamos aqui.

1- Tô vendo...

2 - (cortando) Que bom! Então, nós preparamos um jantarzinho pra vocês.

V2 – Opa! (Já puxando a cadeira para se sentar)

1 (a parte para 2) - Que abuso! Já chegam e vão sentando...

2- (a parte para 1) Calma... Foi a gente que convidou...

V2 – Vamos ficar só um tempinho, temos entrada pra um show que vai começar daqui a 2 horas.

2- Ai, que pena.

V1- Adoro vir aqui, vocês são sempre tão prestativos...

1 e 2 se olham.

V2- Na verdade a gente nem gosta da banda, são uns amigos que nos deram uns convites. Temos que fazer um social, sabe como é...

1 e 2:
- É, é, sei.

1- Vamos comer, já tá tudo pronto (colocando as panelas na mesa). É bom comer bem rápido pra não perder o show, não podem deixar de fazer a social...

V1- Que nada, tranqüilo também se não aparecermos por lá. É só depois mandar uma mensagem pro celular avisando que tá no engarrafamento, na chuva... Mensagem é muito bom pra isso, mentir sem ter que explicar muito.

2 (rindo)- Todo mundo faz isso.

1- Todo mundo não, eu nunca fiz. Acho que vocês tem que ir sim, vai que de repente ninguém comparece ao show, os amigos tem que dar uma força.

V2- Nada, nada. A apresentação deles lota, tem fã clube e tudo. Não vou mandar mensagem não, no dia seguinte passo na casa do vocalista, dou um abraço e digo que o show foi muito bom.

1 (coloca a comida nos pratos dos convidados)- Preparei esse risoto, tá uma delícia!

V1- Imagino, tudo seu é feito com muito carinho. Admiro muito vocês.

2- Obrigado.

1- (vigiando se estão comendo)- Obrigada! Quer mais? Come mais um pouquinho...

2- Podem comer com calma, dá tempo...

V1- Olha vou te contar uma coisa...

1- Conte não, mastiga a comida, faz mal falar e comer ao mesmo tempo.
Vou lá na cozinha pegar uns copos, mô vem comigo, vou precisar da sua ajuda...


Na cozinha

2- Você tem que se controlar, já tá dando na pinta... Eu sei que é um saco aturar esse povo que vai ficando... Vamos tentar ser mais bacana.

1- Não, tá... é verdade, a gente é bacana...

Retornam para a sala.


Na sala

1 e 2
Oi! Voltamos!

2- Vinho tinto ou seco?

1(a parte para 2)- Não enrola, pega qualquer um... Deixa que eu faço isso, vê se já terminaram. (Voltando com uma garrafa de vinho) Olha trouxe o seco...

V1- Não tem tinto?

1- Não.

V2- Mas...

2 (tentando desfazer o clima)- Quer dizer, tinha mas acabou...

1 (já servindo)- Vocês vão ao show, né?

V2- Confesso que está tão gostoso aqui, imagina como deve estar por lá...

1- Não faça isso, vão sim, até porque eu e 2 temos um compromisso daqui a pouco, seria muito bom conversarmos até mais tarde, mas precisamos comprar uma coisinhas pra casa...

2- Temos?

1- Temos! Já esqueceu?

V2- E onde é que vocês vão?

2- Ao mercado?

V2- Mercado? A essa hora?

1- Mas o que que tem? Vamos num daqueles que de 24 horas, tem menos movimento a essa hora...

V1- É verdade. Se quiser a gente espera vocês por aqui...

1- Oi?

V2- É podemos ver um dvd, eu já vim precavido, trouxe um filminho.

2- Ai, que legal!

1- Ih! Ó, nosso aparelho quebrou, não tá lendo mais nada. O 2 andou trazendo uns filmes piratas e acabou escangalhando...

2- Eu? Não tem nada com defeito! Posso te provar que não tem...

1 fulmina 2 com o olhar.

1- (a parte)- Acho que não tem mais jeito.

2- (a parte)- Vamos apelar para as palavras mágicas.

Voltando para V1 e V2

2- Por favor, queiram se levantar.

V1 e V2 não entendendo o tom sério.

2- Olhem em nossos olhos.

1 e 2- A gente é bacana, receber visita a gente adora, mas agora chegou a hora de mandar vocês embora. (plin)

V1 e V2 desaparecem.

domingo, 12 de outubro de 2008

Plaquetas

Precisava nomear, o que não conhecia inventava. Negócio de colocar pão de forma virou plaqueta. Escorregava pela escada com a plaqueta, imitando um tobogã seco. Uma vez, numa das descidas, capotou e quase caiu de cara no térreo. Mas tudo bem, um susto e isso fazia parte daquela aventura. Eram dias de férias no verão brincando com os primos. Plaqueta. Tinha vários desses objetos, construía casas, labirintos, carros, ônibus - qualquer coisa que a imaginação permitia; quando somos novos os sonhos são concretos. Tempo que foi, hoje já crescido tende apenas a lembrar; aí vem tudo, cheiro, calor e ás vezes uma brisa um pouco mais fria para aquela época do ano - talvez um sudoeste anunciando chuva.

O que que a baiana tem?

Achando que o outro não o tivesse visto, evitou virar a cabeça e continuou o seu caminho. Não é que não queria falar, estava cansado e com dor de barriga - tinha pressa. Pensou em telefonar assim que colocasse os pés em casa, não, assim que fizesse o que a urgência o obrigava. Sim, ao sair do banheiro, foi até a sala, posicionou a cadeira de plástico branco ao lado da mesa do telefone e calmamente levou o fone ao ouvido esquerdo. Sentiu um certo desequilíbrio, preferiu trocar de ouvido e com a mão esquerda discou os números. Um toque, dois toques e nada. A culpa pelo ocorrido o deixou preocupado. Era preciso conversar, explicar os fatos, deixar claro que não foi por mal, que havia uma necessidade e que, se parasse para conversar, sabe-se lá o que poderia ocorrer no meio da rua. Deixou passar alguns minutos e retornou a tentativa de contato, sem sucesso. Uma hora passou, dessa vez escutou um "alô?". Falou tudo, desabafou, pediu desculpas. A pessoa que estava do outro lado, apenas ouvia e tentava interromper o monólogo. Quando parou para buscar mais ar, escutou, "Mas eu também, eu te vi, estava correndo. Você não imagina, comigo também ocorreu a mesma coisa. Deve ter sido aquele acarajé que comemos ontem."

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Bar

Escrevo correndo antes que o dia acabe. Pensei: é foda encontrar alguém que não frequente bares. Os papos começam a se encontrar, vira um tipo de música, não tão bem tocada ou experimental demais para mim. É um bla-blá-blá que vai crescendo, crescendo e de repente vira uma grande massa sonora que nada diz. Fico bêbado quando acompanho alguém ou alguéns em noitadas de bebidas, mas não bebo (álcool ). Aí eu fico assim, seguro o sorriso e balanço a cabeça afirmativamente.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Três Marias

Em dias de frio e chuva fina, fazer o que? Sorrir. Não, já está quase tarde. Subirei Santa Teresa para uma reunião; diferente do ditado popular, por lá, para subir qualquer santo ajuda, agora, descer em dia de água pinganda e ladeira molhada... Escorregou, foi na ladeira. Momentos de intuições e de colocar as cartas na mesa, propor e ouvir, ouvir e propor. Vamos ver se conseguimos chegar a algum lugar ou se pelo menos conseguimos um pouco mais de felicidade no coletivo. Daqui a pouco, quando já tiver retornado, me entregarei ao sono e esperararei por um amanhã com sol quente. Quero ver se assim meus ânimos se animam.

raso

qual atalho, uma curva pro caminho do sossego - mas no fundo é raso; água bate no joelho nada - não é nada nunca foi tão fácil contud...